domingo, 25 de abril de 2010

Nas Nuvens

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Quando pequena, achava que ia ver Deus nas nuvens. Cresci e continuei me encantando com elas. E, no fundo, infantilmente, sempre procurando nelas imagens à semelhança da figura de um velho e bonachão senhor que nos acostumamos a ter Dele.
Tanto, que um dos meus passatempos prediletos, ou melhor, ócio religioso, é me perder na contemplação do azul do céu, admirando as nuvens que mudam rapidamente formando figuras desenhadas por minha imaginação.
Na espreguiçadeira, herança precoce pela morte de meu pai, muitas tardes de verão me espalhei admirando as nuvens. Da infância à adolescência, colecionei figuras e sensações com as cores do céu e das nuvens. Nas mais variadas nuances – com a luminosidade de dias claros e alegres, ou no acinzentado sinistro dos prenúncios de temporais.
Cheguei até mesmo ao ápice da infantilidade de acreditar que elas eram macias, e que ao toque dos meus dedos me proporcionariam a sensação de leveza que advém de uma bola de algodão.
POESIE-POESIA-POESIA
Até hoje reservo um momento do meu dia ou da noite para olhar para o céu, não importando se estou indo para a cama, caminhando pela rua, espichando os olhos pela janela do carro ou daquela pequenininha de avião. Mas nesse último posto observatório, uma pontinha de grandeza toma conta de mim no sonho realizado: afinal, lá estou eu finalmente sentada nas nuvens!
Ou então, quando já no portão do prédio subo correndo os dois lances de escadas para enfiar na bolsa, às pressas, a câmera digital. Sei que pela rua encontrarei ‘muitos céus e muitas nuvens’. E que vou querer guardá-las para quase todo o sempre no meu momento nada eterno. Com flash ou sem, tipo portrait ou não, vou captando imagens de todo o jeito, de toda cor, em qualquer lugar, em qualquer céu.
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O Aurélio me indica mais de meia dúzia delas (alta, ardente, atômica, baixa, estelar, média, noctilucente, derramadeira). Ou ainda as nuvens de estrelas e a Nuvem de Magalhães (duas nuvens estelares visíveis a olho nu e próximas ao Pólo Sul, descobertas pelo navegador português Fernão de Magalhães, 1480-1521), enquanto a canção “Sky blue Sky” (Céu, azul Céu), da banda Wilco (country alternativo) vai embalando o emaranhado de palavras desta crônica tão simplesinha e sem um final aparentemente conclusivo.
Mas, como muitas coisas que aparentam ser algo que não são, fica a suspeita de que talvez eu já tenha pulado do útero de minha mãe olhando as nuvens pela janela de uma maternidade, em noite estrelada de um quase verão.
Rosane Leiria Ávila
Jornal Agora (www.jornalagora.com.br)

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Responsabilidade: moral ou social?



Na dúvida, escolha os dois. Palavra simples e corriqueira - mas muitas vezes de difícil assimilação em seu sentido amplo, a responsabilidade pode ser dividida em duas situações: moral e social. Na moral traduz a situação de um agente consciente com relação aos atos que ele pratica voluntariamente; ou em seu inverso - na obrigação de um agente inconseqüente de reparar o mal que se causou a outros.
Já no que diz respeito à responsabilidade social, segundo o Livro Verde da Comissão Europeia, é um conceito no qual as empresas decidem, voluntariamente, contribuir para uma sociedade mais justa e para um ambiente mais limpo. Mais claramente, o conceito de responsabilidade social deve ser entendido em dois níveis, segundo Carlos Cabral-Cardoso, autor do livro “Manual de Gestão de Pessoas e do Capital Humano”: interno e externo.
O nível interno diz respeito aos trabalhadores e a todas as partes interessadas e afetadas pela empresa e que, por seu turno, podem influenciar os seus resultados. Já o nível externo leva em conta as consequências das ações de uma organização sobre os seus componentes externos, nomeadamente, o ambiente, os seus parceiros de negócio e meio envolvente.
Juntar lixo seco e aguardar, com paciência o dia da coleta; comer bala e não jogar aquele ínfimo papelzinho no chão; levar sacolas de tecido às compras ao invés de voltar para casa carregado de sacos plásticos; escolher nas prateleiras dos supermercados produtos concentrados cujas embalagens são menores; ou ainda, dar preferência aos biodegradáveis (e de quebra, que não sejam testados em animais) são atitudes simples e ao alcance de qualquer um.

Qualquer um?! Sim. E em qualquer nível social. Para quem assiste o quadro da Band, “Esse lixo é teu: lugar de lixo é no lixo”, aos domingos no mesmo horário do Fantástico, vê que isso é possível. E viável. Basta apenas um pouco de boa vontade e o parco entendimento de que aquilo de ruim que fazemos, seja aos outros ou ao meio ambiente, volta-se para nós se tornando o nosso algoz, ou seja, de vítima passa a ser agressor. Veja os exemplos das enchentes e caos nas grandes cidades após algumas horas de chuva.
Nos negócios, a responsabilidade social se tornou um dos fatores de competitividade. Se no passado o que identificava uma empresa competitiva era basicamente o preço de seus produtos, hoje se sabe que investir no permanente aperfeiçoamento das relações com clientes, empregados, parceiros, colaboradores e fornecedores, no fabrico de produtos e prestações de serviços que não degradem o meio ambiente, tornou-se também um ótimo negócio. Além disso, as empresas começaram a participar do desenvolvimento da comunidade da qual fazem parte, fazendo disso um diferencial cada vez mais importante na conquista de novos consumidores ou clientes.
Pelo retorno que tudo isso propicia para o futuro do país, seja econômica, ambiental ou socialmente, é que o movimento da Responsabilidade Social Empresarial vem crescendo bastante no Brasil nos últimos tempos. E quem lucra é a sociedade. (Com informações do Instituto Ethos).

Rosane Leiria Ávila
Publicado no Jornal Agora - caderno Mulher Interativa 

Dual


Um... Dois... Um... Dois... Os dedos tamborilavam impacientes na mesa, enquanto a cabeça saía solta pelo mundo. Queria fazer tanta coisa, justamente agora que se sentia no fim...
- Como assim, no fim? Indagou-lhe a amiga sem entender como alguém com 38 anos, bonita, vida confortável, podia se sentir acabada. Ou partindo desta para uma melhor. Alias, seria melhor mesmo? Afinal, quase todos são pecadores e o destino certo é o Inferno.
- Claro, sua boba. O Inferno não é num lugar longínquo como sempre a Igreja nos quis fazer acreditar. É aqui mesmo, na Terra. Nesta terra que meus olhos ardem de ver, retrucou.
Estava enjoada do noticiário diário: traições, guerras, bombas, terremotos, assassinatos, abusos de crianças, violência contra os animais, poluição, destruição, degradação do meio ambiente, maracutaias e sacanagens políticas... Sentia náuseas por causa de tanta coisa sem sentido... O medo e a incerteza batendo todo dia no vidro do carro quando saía...
- Ah, não. Você só está olhando para coisas ruins. O Planeta é mais. É luz, é beleza, é perfeito nos detalhes da natureza. Caprichoso no som das florestas ou no murmúrio das ondas dos oceanos argumentou a outra.
Mas ela fincou pé na assertiva.
- As florestas estão sendo derrubadas, os animais silvestres mortos ou traficados, as madeireiras ilegais deixam grandes extensões áridas na Amazônia. O governo agora quer fazer a usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu que ameaça afetar o rio Xingú e destruir grandes territórios dos índios caiapós e ribeirinhos. Será que é necessário como ele diz ser, mesmo? De verdade? Você sabe que a verdade não chega até nós, pobres eleitores e cidadãos comuns. Fica desfigurada pelos caminhos tortuosos e manipulados que percorre. 

Meu Deus, quanto pessimismo! O que você queria? A população dobrou nas últimas três décadas. Então, são necessários investimentos para grandes massas populacionais, retrucou a amiga.
Um... Dois... Três... Um... Dois... Três... Agora seus dedos estavam mais nervosos ainda. Encarou a outra com medo de se descontrolar e, a qualquer instante, pular no seu pescoço.
Mas, ao invés disso, desviou o olhar. E foi então que viu sua imagem refletida na vitrine da mega loja no passeio do shopping. Ela estava sentada numa dessas cafeterias no meio dos corredores. Sentiu estranheza e um profundo estremecimento. Aquela não era ela. A imagem era de uma senhora de 80 ou mais anos, já curvada pelo tempo. Cabelos brancos, rugas na face, mãos deformadas pela artrite.
Estendeu o olhar e procurou a imagem da amiga sentada à sua frente. De novo, outro susto. Aquela sim era ela. Estaria ficando louca?
Olhou para frente, buscou o olhar da amiga e lhe suplicou que olhasse para a vitrine.
- O que você vê? O que vê? - perguntou aflita.
Então, depois de infindáveis instantes a amiga voltou a cabeça lentamente para a direção dela e lhe disse:
- Eu vi o tempo.

Rosane Leiria Ávila 
Publicada no Jornal Agora - Mulher Interativa

domingo, 4 de abril de 2010

Falar ou silenciar?


Quando falar e quando calar? Saber falar é um dom – dizem, e calar, sabedoria. Mas, o mesmo vale para o sentido inverso? Em que momento falar é sábio e silenciar, uma virtude?

Refleti sobre essa questão durante um almoço. Confesso que o ambiente zen do restaurante vegetariano e a música suave de fundo ajudaram minha reflexão, se é que não foram responsáveis por ela. O fato é que me veio à mente a declaração de minha fisioterapeuta uma hora antes. Ela contou que durante uma massagem nas costas e coluna cervical de uma paciente, repentinamente encontrou um nódulo de tamanho significativo e com muita pouca chance de ser lipoma.

Claro que ela alertou a moça para a descoberta, mas quando perguntada por esta que tipo de especialista procurar, faltou-lhe coragem de indicar logo um oncologista e acabou aconselhando-a a ir a um clínico geral.
- Não tive coragem de dizer a ela que procurasse o oncologista para não assustá-la, completou.
Concluímos a conversa falando no medo que às vezes se tem de descobrir a verdade. 

Também me veio à mente o programa “Saia Justa”, do GNT, assistido na noite anterior no qual as quatro apresentadoras – Mônica Waldvogel, Betty Lago, Márcia Tiburi e Maitê Proença liam e-mails enviados por telespectadoras. Em um deles uma moça perguntava se devia acabar o relacionamento com o namorado que gostava de praticar suingue (prática sexual que envolve dois ou mais casais).

A melhor resposta não foi dada por elas e saiu de perto de mim: “Se isso não incomoda a moça e se ela gosta, que continue. Mas é difícil pensar que seja assim, senão ela não estaria em dúvida”.

Questionei se essa clareza de resposta foi por esta estar resguardada no anonimato... Bem, o fato é que as apresentadoras do programa engasgaram - Bete se declarou bastante irritada, Maitê falou sem clareza e Mônica foi a que mostrou uma posição mais razoável para aquele momento, embora não tenha dado uma resposta concreta à telespectadora.

Sobre isso, de novo voltei a questionar em como é complicado ser sincero e falar o que realmente se pensa – já que a sinceridade muitas vezes é tomada por rispidez ou falta de educação. Talvez a resposta que uma delas tivesse vontade de dar tenha ficado entalada na garganta, engessada pelo hábito de que já nos acostumamos (ou fomos educados para assim o agirmos) a tomar um atalho cômodo para que não causemos mágoas.

No fundo, acredito que saber quando falar e quando calar é uma questão que envolve o nosso aprendizado na vida, o nosso crescimento e a nossa evolução. Que chega com o tempo e com a maturidade.

Rosane Leiria Ávila
Publicado no Jornal Agora (www.jornalagora.com.br) Mulher Interativa (http://mulher-jornalagora.blogspot.com)

sábado, 20 de março de 2010

Despojamento




Tenho alergia a carregar bolsas, sacolas, pacotes ou qualquer coisa que se pareça com elas. Muitas vezes, deixo de comprar só para não ter que carregar. Mas, em certas ocasiões essa mania me atrapalha bastante, principalmente quando, por exemplo, desisto de levar comigo o livro do momento. E, depois, amargurar várias horas em recepções folheando velhas revistas ou assistindo, a contragosto, programas banais de tevê.
Essa faceta já fez arrepender-me mortalmente por não ter comprado uma calça linda, botas maravilhosas, a blusa ou o vestido remarcados com preços imperdíveis. Argh! Nessas horas chego a me odiar por gostar de andar leve, de ter as mãos livres, de não ter que me preocupar em chamar a atenção para ser roubada ou assaltada... De não correr o risco de esquecer alguma coisa em algum lugar. De não sobrecarregar minha coluna com pesos de coisas supérfluas. Às vezes, nem tão supérfluas assim...
E prometo a mim mesma, parada diante de uma loja cuja vitrine exibe modelos incríveis, que vou voltar no dia seguinte preparada psicologicamente para comprar e carregar. Mas não volto. Nunca volto. Porque na maioria das vezes esqueço o nome do estabelecimento, da rua e me dá uma amnésia proposital do bairro por onde andei.
Mas, na verdade, a maior motivação que encontro nessa atitude é o prazer que sinto em caminhar longas distâncias, e fazer isso de forma despreocupada e saudável.  Como naquela famosa música de Caetano “Sem lenço e sem documento”.  O carro fica esquecido na garagem semanas a fio e, na hora da troca, a quilometragem rodada surpreende a revenda.
O mais curioso é que me sinto tão bem, ou melhor, do que se tivesse comprado (claro que o saldo bancário agradece). Mas reflito se isso não ocorre também porque me habituei a não decidir nada sem pensar muito. Sem analisar prós e contras. Sem questionar a necessidade real de adquirir determinado objeto ou vestuário ou sei lá mais o quê. E no quanto aquilo poderia me fazer sentir melhor do que me sinto no momento, ou me proporcionar prazer. No fundo, também porque sei que prazer e alegria independem de bens de consumo. Eles só mascaram a tal felicidade.
Mas... Tudo isso se inverte quando respiro o divino odor que exala dos livros. Nas megastores não consigo controlar o impulso consumista. E nessas ocasiões, nem mesmo o ralo saldo de final de mês ou tampouco a ojeriza de carregar pacotes me detêm. Viro uma consumidora voraz. Acabo voltando para casa exausta, cheia de pacotes e com a alegria de uma criança em noite de natal. Mas como sou chata, isso acaba me causando  angústia: enquanto minha pequena biblioteca cresce, esvaziam-se os pretendentes às obras...
E eu não escrevi antes que sofro tudo por antecipação?
Rosane Leiria Ávila

Crônica publicada no Mulher Interativa (http://mulher-jornalagora.blogspot.com/)

sexta-feira, 19 de março de 2010

Temperança

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O artigo não era novo, mas na sala de espera de um consultório médico chamou minha atenção pelo fato de ser atemporal. Em um número da revista Bons Fluídos de 2006, a jornalista e pesquisadora Sônia Hirsch escreveu sobre temperança.

Temperança, segundo o Aurélio, é qualidade ou virtude de quem é moderado, ou de quem modera apetites e paixões; sobriedade. Também significa moderação, comedimento, temperamento, economia e parcimônia.

Pensei que temperança é o que deveria pautar a vida de todos nós. Ultimamente tenho pensado sobre o futuro da Humanidade e do nosso próprio povo. E tenho sido cética em minhas conjeturas de que não há saída, de que o mundo não vai ficar melhor e de que os homens não vão rever conceitos nem mudar costumes e ambições. Entretanto, como escrevi acima, se em cada um de nós estivesse plantada uma sementinha de temperança, viveríamos tempos melhores. Deixaríamos perspectivas de vida mais dignas, mais saudáveis e mais humanas aos adolescentes e crianças de hoje.

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Temperança, quando a questão é o alimento como uma experiência diária de prazer e satisfação que precisa de temperos, não o dos vidrinhos, mas o da consciência, afirmou Sônia, é por exemplo, comer só na quantidade adequada à necessidade do momento. "Comer demais é uma das maiores burrices da vida e, além de ser um desperdício, sobrecarrega a digestão, entorpece a mente, engorda, prende o intestino e vira doença".

E penso que quando a questão é moral,temperança é não se desejar mais do que se pode usufruir; é não ter demais quando tantos têm tão pouco. Temperança é saber que podemos ser felizes com o razoável. É se contentar com um carro popular ao invés de sonhar com um modelo importado, porque ambos percorrerão as mesmas distâncias. Temperança é um estado de consciência sempre em alerta aos excessos e às vicissitudes descabidas.

A autora também citava o livro Pequenos Tratados das Grandes Virtudes, do filósofo contemporâneo André Comte-Sponville (Editora Martins Fontes): "A temperança, que é a moderação nos desejos sensuais, é também a garantia de um desfrutar mais puro ou mais pleno. É um gosto esclarecido, dominado, cultivado. Em vez de escravos, passamos a ser senhores de nossos prazeres".

O grande pensador do século XVII, Baruch Spinoza (1632-1677), diz que a temperança é um meio para a independência, assim como essa é um meio para a felicidade: "Ser temperante é poder contentar-se com pouco. Mas não é o pouco que importa: é o poder, e é o contentamento".

Rosane Leiria Ávila

sexta-feira, 12 de março de 2010

Sobre focinhos e afetos...

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Uma tia querida, casada e sem filhos, durante anos a fio viveu mantendo distância de animais domésticos – apenas criava galinhas para ter sempre ovos fresquinhos para os quitutes que tanto gostava de fazer para tropa de sobrinhos e afilhados que tinha.

Pois bem. Poucos anos antes de seu falecimento adotou – e eu nem sei contar aqui como esse fato histórico se deu -, uma cachorrinha a quem deu o nome de Brigite. Seria uma homenagem a Bardot? Àquela atriz francesa linda que abandonou a carreira no auge da fama nos anos 70 para se tornar uma ativista dos direitos dos animais?

Também não sei. A realidade é que vi o coração de minha tia se derreter dia a dia até ser tomado totalmente de amor por Brigite. As conversas durante as visitas passaram a se valer das peripécias dela. Minha tia já não sabia viver sem sua cadela.

E desta o que lembro? Da paciência e sabedoria para conquistar um humano, não digo insensível a animais, mas desabituado a demonstrações puras e inesperadas de afeto.

Um dia, Brigite morreu. Ao desconsolo de minha tia se seguiu a ideia fixa dela encontrar uma outra Brigite, igual na aparência física e no jeito.

Eu achava isso praticamente impossível e qual não foi minha surpresa ao receber a notícia, meses depois, de que ela havia encontrado outro animal igual à sua amada Brigite. E que havia batizado a nova cachorrinha de “Brigite II”. Assim mesmo, como descendente de uma dinastia.

Do que lembro e soube, a troca entre as duas se tornou tão igual à anterior.

Lembrei disso tudo porque hoje, durante o almoço e tendo por companhia inseparável um focinho, quatro patas, um coração maior que o mundo e uma inteligência excepcional, pensei nefastamente no dia da sua partida! Quem já passou por isso, leu o livro “Marley & Eu” ou assistiu ao filme tem uma noção de como esse momento de separação é extremamente difícil e doloroso.

Ao descer com há alguns dias para um dos seus três passeios diários, diverti-me com a cena cômica protagonizada por ela: burlando minha vigilância ela, que está extremamente proibida de roer ossos, achou um como se fosse um tesouro escondido num lugar secreto da rua. À minha ordem para largá-lo, obedeceu prontamente. Mas logo se arrependeu e o pegou de novo. Olhou para mim, viu minha desaprovação e o soltou novamente. Depois disso, repetiu a cena quase uma dezena de vezes. E eu, já aos risos escancarados, não tinha mais autoridade alguma para lhe impor nada.

Faceira, subiu os dois andares de um fôlego só, ansiosa para entrar e começar a degustá-lo. Passou o resto da tarde e entrou a noite roendo-o, num estado total de felicidade. Quando terminou, sua cara era de quem tinha alcançado o céu por um minuto.

Como não sentir saudades quando ela partir?! Está bem, assumo: sou um caso perdido, pois sofro tudo por antecipação.

Rosane Leiria Ávila – Publicada no Jornal Agora (http://www.jornalagora.com.br) – 13 e 14 de março de 2010.

Dor na consciência...

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Toda vez que abro a torneira para lavar uma louça penso nos milhões de pessoas que estão fazendo exatamente o mesmo no planeta. Isso me faz diminuir a saída de água e racionalizar meu consumo. Mas quantas destas pessoas estão também fazendo isso?

Abro o chuveiro e lá vem o mesmo pensamento de novo. Imagino os bilhões de litros de água que estão naquele exato instante descendo (moro em apartamento) canos abaixo... Novamente sou tomada de um ataque súbito de consciência e diminuo o tempo do banho e a vazão da água.

É totalmente inadmissível não se pensar no esgotamento dos recursos hídricos da Terra, embora chova muito ou ainda o nível dos oceanos estejam subindo devido ao degelo dos pólos.

Quando saio a passear com minha cachorra e vejo folgados vizinhos a regarem o jardim despreocupadamente; ou pior, a lavarem calçadas descaradamente, sinto ímpetos de desfiar impropérios sem fim e colocar em xeque-mate seus níveis de civilidade, cidadania e consciência.

O Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, emitiu um relatório alertando que o mundo vai sofrer com a falta de água doce em menos de 20 anos. O motivo? A demanda cresce em ritmo mais rápido que a população mundial. Os autores do estudo afirmaram que em menos de duas décadas a falta de água fará com que a Índia e os EUA percam totalmente suas colheitas, fazendo com que a procura por alimentos se torne praticamente uma guerra.

O mesmo relatório também calculou que no ritmo atual de derretimento, a maioria das geleiras do Himalaia e do Tibet desaparecerá até 2100. Além disso, que 70 dos maiores rios do mundo ficarão secos por causa dos sistemas de irrigação para a agricultura.

E o que mais me fere é ver que essas pessoas que abusam dos recursos do planeta, que agridem e ferem a natureza, que desperdiçam desde os versos das folhas de papéis cujas florestas foram derrubadas e litros de alvejantes foram derramados nos rios para que estas lhes chegassem alvíssimas às mãos, são as mesmas que têm vários filhos e uma prole crescente de netos. O que pretendem deixar para eles? Qual o exemplo que lhes estão dando? A meu ver, a lição que lhes estão passando garante apenas o continuísmo de seus próprios e nefastos atos.

E como acredito no “Efeito Borboleta” - teoria da realimentação onde os efeitos finais estão ligados às condições iniciais da alimentação dos dados -, é mais do que previsível qual será o resultado final de tudo isso.

Há muitos anos se vem ressaltando que o homem está destruindo a vida do planeta. De uns tempos para cá, de forma galopante. Mas será que no final a Terra poderá continuar existindo, de uma ou de outra forma? Árida, talvez transformada em pedra? E o que será extinto será o próprio homem que não encontrará mais condições propícias à sua sobrevivência? O que leva a pensar que ele está dando a sentença a si próprio... Ele é que desaparecerá... Pelo menos na forma e no tipo de matéria que se reconhece como homem...

Rosane Leiria Ávila

Publicado no Jornal Agora (http://www.jornalagora.com.br), edição 27 e 28 de fevereiro de 2010.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Sol e sombras

sol e sombra

 

O dia estava já estava escaldante pela metade da manhã. As sombras nas calçadas tentavam se esconder do sol. Uma mulher clara, de pele alvíssima, e uma menina caminhavam tentando se proteger nas riscas sem luz solar que ainda restavam no passeio.

Ela tinha um lenço nas mãos que de quando em vez levava às costas, em pequenas e suaves batidas. Atrás, a poucos passos das duas, o fato chamou a atenção de outra mulher, que ao alcançar a dupla comentou:

- Calorão, não? Só mesmo se abanando para driblar.

A mulher olhou para outra dividida entre a surpresa da abordagem e o próprio comentário em si. Talvez até mesmo pelos dois...

- Não é para me abanar, senhora. É para aliviar o incômodo e a dor, respondeu.

A interpelante reparou, então, nas enormes bolhas em suas costas. Sentiu-se condoída, mas também curiosa.

- O que lhe aconteceu? Queimadura pelo sol?, perguntou.

- Não, respondeu-lhe a mulher. É uma doença e estou vindo da igreja onde fui levar a receita para o pároco me ajudar com os remédios. Mas ele disse que não tinha dízimo e que eu voltasse na próxima semana...

A mulher se espantou. Como isso poderia ser possível? Embora não fosse médica, enfermeira ou trabalhasse na área da saúde, intuía que as lesões eram sérias. E que poderiam vir a se tornar mais sérias ainda. Decididamente, esperar uma semana era algo impensável.

Pediu a receita e com ela em mãos atravessou a rua em direção a uma farmácia. A poucos passos dela, a mulher e a menina a seguiram.

À atendente no balcão solicitou um orçamento das medicações. Começou a se sentir nervosa, pois também não tinha muitos recursos no momento. Na verdade, tinha na carteira apenas o suficiente para a sua manutenção naquele dia – transporte e alimentação.

- São R$ 22,50, disse-lhe a atendente. Ela apertou os lábios, apreensiva. Tudo o que tinha eram R$25. Olhou para a mulher e viu em seus olhos a humildade com que ela lhe agradeceria, mesmo que não comprasse os remédios.

- Vou levar, disse.

A mulher quase não acreditou e enfileirou palavras de agradecimento.

Por seu lado, ela pensava em como lidaria com o problema que agora criara para ela. Estava sem cartões ou cheques. Bem, pelo menos tinha dinheiro para chegar em casa, pensou.

- Posso fazer algo mais pela senhora? – perguntou já na porta da farmácia, despedindo-se delas.

- Por mim, não. Nem tenho palavras pra lhe agradecer. Mas minha filha está se queixando de sede há horas, e nós saímos muito cedo de casa e estamos caminhando há muito tempo.

A mulher reparou na menina. Loira, olhos enormes e azuis, rosto angelical e cabelos encaracolados. Meiga, linda e como a mãe, humilde nas vestes e nas atitudes, como se quisesse que o mundo não reparasse nela. Imaginou – ou falou em voz alta -, que ela deveria ter por volta de 8 anos.

- Tem 10, assegurou-lhe a mulher.

Bem como ela imaginava. Subnutrida... Comprou uma garrafa de água mineral e estendeu à menina, que murmurou vários agradecimentos.

Despediu-se e saiu caminhando pelo sol que já tomava toda a rua. Ela agora tinha um problema maior, pois seus últimos R$2,5 que lhe pagariam o custo do transporte usara para pagar a água.

Respirou fundo. Olhou para o céu de um azul profundo e pensou em como estava se sentindo maravilhosamente bem. Muito melhor do que antes, quando ainda tinha os R$ 25. Pensou em Deus e agradeceu por ser ela a estender a mão a alguém.

Virou a esquina, caminho alguns passos e escutou chamarem seu nome. Um carro parou no meio-fio e ela reconheceu a colega de trabalho.

Entre, Teresa. Vou lhe dar uma carona, pois estou indo para o lado onde você mora... E, olha... Eu estava querendo comprar biscuits para dar de presente a uma amiga que faz aniversário no sábado. Você tem algum?

Ela, nas poucas horas vagas, e às vezes, madrugada a dentro, trabalhava com artesanato para aumentar sua renda.

Tenho, respondeu. Entrou no carro e agradeceu mais uma vez a Deus. Seu dia estava duplamente premiado.

 

Rosane Leiria Ávila

Publicado no Mulher Interativa (Jornal Agora) http://www.jornalagora.com.br/site/index.php?caderno=48&noticia=77932

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