quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

E se...

e se - ilustração cronica rosane

E se no ano que começa hoje nos reiventássemos? E se abríssemos nossos corações, amando mais e de forma mais plena? E se não fôssemos tão sisudos, tão pessimistas? Se sorríssemos mais e largamente? E se nos embriagássemos somente de alegria? Se abandonássemos nossos medos e receios? E se olhássemos mais nos olhos dos outros e descobríssemos ali, maravilhados, um mundo interno repleto de amabilidade, compaixão e respeito?

E se acreditássemos mais em Deus, em nós, na vida, nos outros e nos sonhos? E se fôssemos mais sinceros conosco? E se escutássemos mais nossa intuição? E se a seguíssemos mais? E se discutíssemos mais com a razão fazendo-a descer de seu pedestal? E se colocássemos o ego abaixo? E se desmontássemos o arsenal bélico interno que nos faz estar sempre na defensiva?

E se trabalhássemos menos e nos divertíssemos mais? Se cuidássemos melhor dessa máquina maravilhosa que é o nosso corpo (capaz de nos levar a qualquer lugar do planeta e até ao espaço)? Se cuidássemos melhor dele e do que imputamos a ele (estresse, má alimentação, sedentarismo, álcool, fumo, drogas)?

E se fôssemos mais leves, mais voais? Se nos movêssemos com a leveza e a beleza das garças e a liberdade dos pássaros?

É quase impossível que, confrontados e impelidos (afinal, não tem outro jeito) a encararmos um novo ano, não imaginarmos infantilmente nas inúmeras probabilidades que temos e podemos construir para recarregarmos nossas baterias internas, oferecendo a esse novo e desconhecido ano somente o que há de melhor em nós!

O encerramento de um ano e a expectativa de um novinho chega tal qual a agenda nova, cujas folhas impecavelmente limpas e agradavelmente cheirosas estão à espera de boas anotações, somente boas...

Rosane Leiria Ávila

Publicada no Jornal Agora em 1º/01/2010

http://www.jornalagora.com.br/site/index.php?caderno=48&noticia=75796

domingo, 25 de outubro de 2009

Contradições

Nós nos contradizemos? Sim, muitas vezes. E contradizer por acaso não é producente? Ou é contra-senso? Num lapso de dúvida, recorro ao Aurélio que me socorre, reforça e dá outras versões à palavra contradizer, as quais são: impugnar, contrariar, desmentir, alegar o contrário ou desdizer... E ainda, categoria fundamental da lógica dialética, ou seja, arte do diálogo ou da discussão'... Gostei mais deste último posicionamento em relação à palavra. Na verdade, ele se encaixa numa justaposição ao fato.

Afinal, contradizermo-nos pode significar mesmo antes de se assemelhar a um posicionamento imaturo ou inconseqüente; exatamente o oposto. Uma percepção inteligente em relação à vida, às nuances e aos acontecimentos... Pode significar estar atento às lições que a vida dá a todos e a qualquer um de nós. Pode, também, nos manter em estado de alerta às mudanças - nossas, dos outros e do mundo como um todo.

E, afinal, toda mudança encaminha o indivíduo para o crescimento. Sim ou não? Com certeza, sim. Mesmo aqueles que insistem numa cegueira voluntária porque não querem enxergar; pois assim sendo, temem ter que mudar.

Há muito tempo, confrontado com uma de minhas contradições, alguém me cobrou um posicionamento anterior a determinado assunto, referindo-se a isso, veladamente, como se uma fosse uma falha de caráter... O detalhe era que essa pessoa recuperou uma referência feita há séculos e já totalmente ultrapassada por diversos fatores: por eu ter amadurecido, por ter mudado, e por tudo à minha volta agora ser diferente.

Fiquei olhando para essa pessoa e pensando no quanto ela estava engessada por suas posições rígidas de olhar a si e aos outros. Arraigada, não se dispôs a abrir-se feito leque ou esponja aos ensinamentos através das experiências que todos os dias todos nós recebemos.

Vejo que sua pouca predisposição de mudar o faz agarrar-se como náufrago desesperado a velhos conceitos e preconceitos, em um flagrante desperdício de tempo. Ah, o tempo! Sempre ele nos dando ou nos fazendo dar voltas!

Rosane Leiria Ávila (crônica publicada no Jornal Agora, caderno Mulher Interativa www.jornalagora.com.br)

contradiçoes - ilustracao

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O tempo dentro de um sonho


A velocidade do tempo me faz compará-lo a um ato de violência. Daquela que acontece de forma inesperada e surpreendentemente. Há semanas, meu referencial comparativo de espanto se dá às quintas, quando começa a “Grande Família” e meu primeiro pensamento é: “estão doidos, o programa foi ao ar há dois dias”.
Mas não. Ele foi ao ar exatamente há sete dias; e quando me dou conta já se passaram mais sete. Juro, que não quero mais brincar com o tempo disparado. Não com esse tempo que voa, que atropela, que me dá a impressão de viver num sonho, de estar em um cometa, sei lá...
Quero um tempo parado. Um tempo com tempo para tudo. Um tempo em que os ponteiros do relógio se arrastem; mas tenho que me lembrar de colocar fora todos os digitais e ficar com aquele velho relógio na sala da avó, com tique-taque e passarinho de madeira saindo para cantar de hora em hora. A mim parecia, enquanto criança, que decorria uma eternidade entre uma e outra saída dele.
Esse tempo cibernético me rouba o tempo para jogar conversa fora com os amigos; para me deitar preguiçosamente à sombra em um dia quente fora da estação; para dar mais atenção aos meus familiares e a mim mesma; para não ter que agir sem tempo de refletir...
Quero um tempo envolto em mansidão. E quero, além de ter mais tempo para tudo, tempo para me lembrar do tempo vivido sem que pareça que nada eu tenha vivenciado. Lembro agora do filme “Um sonho dentro de um sonho” (escrito e interpretado por Anthony Hopkins , 2007), que conta a história de um ator e roteirista que teve sua vida sempre no limiar de duas existências: a da realidade e a de seu mundo interior. Enquanto escreve, vê seus personagens aparecerem repentinamente em sua vida. A partir daí, perde a capacidade de discernir o real do irreal e seu cérebro o leva à beira de um colapso.
Essa velocidade da qual o tempo se utiliza e a qual eu tenho que me moldar, me dá a impressão exata de viver picos de consciência inseridas em cenas diáfanas cotidianas: o dia mal amanheceu e já está na hora do almoço; almoço e parece que recém comecei uma tarefa e já está na hora do café da tarde; mal este acaba e já é noite. E tão logo ela se instala e já chega o primeiro bocejo alertando que está na hora de ir para a cama. Olho para o relógio e já são 1h da madrugada. Tento me lembrar do dia, mas parece que foi um sonho...

(Por: Rosane Leiria Ávila, publicada no caderno Mulher (http://mulher-jornalagora.blogspot.com), do Jornal Agora (www.jornalagora.com.br)

Em cartas inéditas, Dostoiévski dá lições de humanidade

O tradutor Robertson Frizero no lançamento do livro (crédito: Rosane L. Ávila)

Imagem da capa

Poucos escritores conseguiram trabalhar suas tragédias pessoais com tanta humanidade quanto Dostoiévski. Suas cartas ganharam tradução inédita em português em lançamento da Editora 8INVERSO.

O lançamento da obra aconteceu no auditório da Livraria Cultura do Shopping Bourbon Country, em Porto Alegre, no dia 15 de agosto último. O livro Dostoiévski – Correspondências – (1838-1880), do tradutor Robertson Frizero, atraiu a atenção do público que lotou o local para a breve apresentação e leitura de fragmentos da obra.

O evento contou ainda com a participação especial do ator Marcelo Almeida na leitura dramática de alguns trechos da obra, publicada pela Editora 8INVERSO. Esta é a primeira vez que uma coletânea de cartas do grande autor russo é publicada em língua portuguesa.

Antes, porém, o editor Cássio Pantaleoni fez uma breve introdução do empreendimento, considerado ousado tanto pela tradução quanto pelo próprio projeto editorial.

Fundada em 2008 por Pantaleoni, também escritor e filósofo, a Editora 8INVERSO tem como foco a qualidade em primeiro lugar, e ainda este ano deverá lançar mais três títulos de peso. “Nosso intuito é recuperar algo que foi perdido no mercado literário”, justificou o editor.

Tanto o editor quanto o tradutor ressaltaram a importância da obra e a riqueza de suas referências. "É um livro projetado para proporcionar um conhecimento mais aprofundado sobre o interior deste autor russo, bem como fornecer dados sobre época, personalidades e situações que permeiam a biografia de Dostoiévski".

Para o tradutor Frizero, o conteúdo das cartas revela bem mais sobre a personalidade de Dostoiévski, daquela que o mundo literário já conhecia. "Nas cartas são mostradas não só sua intimidade, através de suas fraquezas, tristezas ou culpas, mas também fatos marcantes que influenciaram fortemente sua formação como escritor. Muitos, refletidos em personagens e situações descritas em sua obra”.

Segundo ainda Frizero, o leitor terá uma oportunidade de desfrutar de uma verdadeira aula sobre o que é ser um escritor. Através das cartas do escritor, é possível se conhecer o que se passava com o autor no momento em que ele estava fazendo literatura. Elas falam sobre o dinheiro escasso para escrever; na pobreza vivida; na melancolia que o assolava. Também sobre a dificuldade de expor seus sentimentos, embora os sentisse com intensidade.

Selecionar em torno de 250 cartas e traduzi-as foi um processo bastante difícil, contou Robertson Frizero. “Ainda mais tendo o cuidado de respeitar os tons com que foram escritas”, disse ele. O livro mostra a formalidade ou informalidade de Dostoiévski, conforme as cartas se apresentavam.

Para tornar a leitura mais compreensível para o leitor, o livro foi dividido em quatro sessões, que levou em conta alguns critérios como: fatos da vida pessoal dele, o processo como escrevia e trabalhava os textos; os fatos que ocorriam na Rússia e as análises feitas pelos escritores sobre o cotidiano do povo russo.

Através das cartas o leitor se emocionará ao ver o amor de Dostoiévski pelo seu irmão mais velho e seu melhor amigo (que também tinha pretensões literárias); sua paixão contida por uma senhora casada e que viria a se tornar sua esposa após a viuvez dela. Ou se revoltará com os relatos de sua prisão e a tortura mental de sua sentença de morte. Junto com outros presos, ele foi levado aos rituais finais de execução, cancelada no último segundo. O ato foi uma encenação para possibilitar a expressão de um “generoso perdão” do Czar. Esse fato, contou o tradutor, causou um grande impacto em Dostoiévski.

Vieram depois o exílio e a tragédia pessoal vivenciada pela perda da filha Sonia. Ela morreu com apenas três meses de idade, em Genebra, no dia 18 de maio de 1868. Para ele, um fato irreparável do qual custou a se recuperar. Ou não se recuperou, já que descrevia seu sofrimento com intensidade, assim como o imenso amor dela por ele, apesar da tão tenra idade.

“Enfim, poucos escritores conseguiram trabalhar suas tragédias pessoais com tanta humanidade. Dostoiévski fala de tudo em seus personagens e em sua literatura. O livro é um convite para que se conheça sua obra”, encerrou Frizero. A obra oferece também um interessante panorama sobre o meio literário do século XIX.

Em um banal desabafo ao irmão, escrito em 17/09/1846, já que ele próprio solicitava uma correspondência mais ativa entre os dois, Dostoiévski, diz: “Cartas são um absurdo; apenas farmacêuticos escrevem cartas”. E graças a isso ser desabafo destituído de qualquer intenção contrária, é que o leitor pode desfrutar da grandeza literária desse grande escritor russo, trazida à luz no mundo da literatura por essa profícua correspondência.

O lançamento neste mês de agosto, oito no calendário, foi totalmente intencional, segundo Cássio Pantaleoni. “Tudo precisou ser feito muito rápido para aproveitar a data, já que tem tudo a ver com o nome da 8INVERSO”, revelou o editor. (Por: Rosane Leiria Ávila)


SERVIÇO:

Dostoiévski – Correspondências - (1838-1880)

Tradução: Robertson Frizero

248 páginas - R$ 54,00

Editora 8INVERSO

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Dar é bom, mas às vezes nos arrependemos


Dar é bom. Mas às vezes você acha que fez besteira e bate uma sensação de arrependimento... Acorda numa fria e manhã de domingo no auge do inverno, se perguntando por que se desfez daquele magnífico casaco de pura lã, produzido por uma marca tradicional já extinta e usado tão poucas vezes! Mesmo que o modelo fosse clássico, pois, para roupas caras o investimento só vale a pena para peças que em tempo nenhum sairão da moda.Pensar também que você jamais voltará a adquirir um modelo semelhante, até porque o fabricante já não existe mais, a poderá ainda deixá-la um pouco mais para baixo.Mas aí, como tortura pouca é bobagem, você aproveita para também pensar naquele blazer xadrez de linho puríssimo, de uma das mais conceituadas griffes mineiras e que era o objeto de desejo de suas amigas... Neste caso específico, você recorda que o corte dele tinha saído de moda. Mas, ora bolas! Moda vem e vai e vem de novo! Por que não esperar o retorno?Porque certas peças do nosso vestuário, apesar de ainda perfeitas e atenderem ao fim ao qual foram feitas, nos incomodam tanto quanto palavras mal ditas (ditas num impulso sem pensar)... Ou seriam malditas (no sentido de malignas)? Algumas roupas em nosso armário acabam, por nossa imaginação, carregadas de cargas emocionais. A manhã fria, fruto de sucessivos dias chuvosos, me fez lembrar ainda o quanto aquele casaco me aquecia e me dava a agradável sensação de calor de colo de mãe. Mas, que foi, a certa altura, substituída pelo desconforto de lembranças que deviam ser deixadas no passado, como páginas de um livro que jamais voltaria a folhear. O que me serviu de consolo no ataque saudosista daquela manhã, foi imaginar o quanto o casaco estaria aquecendo outra pessoa. Dar para esquecer, imagino ser uma das causas de se vincular fatos vivenciados aos objetos. Se eles foram agradáveis, é provável que se leve mais tempo para praticar o desapego... Se trazem à tona lembranças não muito boas (mesmo não traumáticas), ou suaves como a de uma juventude diáfana, então o que se deseja mesmo é tirá-los dos armários e do alcance dos olhos, a exemplo das velhas fotos em papel que particionam nossa história. Escondidas no fundo de um armário em álbuns que não foram manuseados nos últimos cinco ou dez anos, provavelmente também não o serão nos próximos 20. E de lá só sairão à luz do dia manuseados por nossa terceira geração, provavelmente, quando já não mais estivermos por aqui. E nem mesmo nossos descendentes vão querer guardá-las. Afinal, agora a vida é virtual e o mundo todo a guarda no Orkut.


Rosane Leiria Ávila

sábado, 8 de agosto de 2009

“Quando se pede com vontade, Deus atende”


Ele fez de sua existência um belo caminho e um belo presente. Poucos textos (in natura) para serem editados me tocaram tanto. Mas a bela matéria do repórter Bruno Kairalla veiculada no último FelizIdade sob o título “Prolífera paternidade”, conseguiu me impressionar e me fazer refletir sobre o quanto é maravilhoso ver alguém dar um sentido maior à sua vida, um sentido verdadeiro à sua existência.
Assim como eu, acredito que muitos leitores se sentiram emocionados pela matéria. Em tempos de indiferença ou apatia social, é reconfortante ver que há pessoas que são capazes de plantar em nossos corações e à sua volta, sementes de esperança de que o mundo pode ser melhor.
“Quando se pede com vontade, Deus atende”, disse o entrevistado. Acredito que o senhor Carlos Klinger tenha pedido, não só como relembrou ao repórter para que tudo desse certo às vésperas do nascimento de seu terceiro filho (que saberia depois ser filha), mas que ele também tenha pedido antes mesmo de vir, para que sua reencarnação fizesse sentido e fosse empregada em benefício de outras pessoas. E Deus o atendeu...
Uma lição bem feita e que certamente começou no plano espiritual, e nela lhe renderá mais dividendos para uma próxima, desconfio. E também para a construção de um bom carma.
Pelo menos milhões têm a mesma chance, a mesma oportunidade que teve esse senhor, contador por formação, engenheiro por intuição e benfeitor de coração, de se comprometerem com o bem. Mas preferem pegar a contramão dos bons sentimentos e das boas ações. Têm predileção em escrever por linhas tortas histórias mais tortas ainda, expressas com sangue, violência, desamor... Quando poderiam, assim como ele, vivenciá-las minuciosamente com solidariedade, compaixão, amor e respeito ao próximo, ao planeta e todos os seres que nele habitam.
E mais adiante ele também nos dá um lição de humildade e virtude quando conta que fez um “desabafo arrogante” à Nossa Senhora por causa de uma séria isquemia que lhe deixaria graves sequelas. “Fiquei arrependido no mesmo momento e pedi para Ela que me levasse embora, pois não merecia seu perdão.”
Mas 30 horas depois ele começou a melhorar e perdeu apenas a audição do seu ouvido esquerdo. Quantas vezes ao fazermos uma prece, a fazemos de forma egoísta e grosseira sem sequer nos darmos conta de nossa insolência? Simplesmente por nos parecer “tão natural” pedir nos achando merecedores de receber?

Rosane Leiria Ávila
[Crônica publicada no Jornal Agora www.jornalagora.com.br, caderno Mulher Interativa

O peso da balança


Você já imaginou ver-se fora de si mesmo? Como os outros o vêem? Tudo bem, se chegar à conclusão de que os outros não o conhecem. E provavelmente não o conheçam mesmo. Não na sua essência, na sua verdadeira identidade. Provavelmente, o que você tenha exposto na sua vitrine durante todos esses anos, tenha sido o que você queria que os outros admirassem – ou temessem -, em você.
Experimente fazer um jogo: imagine por um breve momento se enxergar como os outros o enxergam. Avalie-se com os olhos dos outros. Mas para isso será preciso deixar de lado o orgulho e se permitir pressentir dentro de você.
Necessário também será se despir da vaidade para você mesmo. Da mesma forma, pensar que nesse momento não precisa encenar nenhum personagem. Basta apenas se olhar com a maior honestidade que for capaz.
Então, e só então, pergunte-se o que ali está vendo: alguém com capacidade de amar, de perdoar, de se doar? Com coragem de mudar? Ou um arremedo de um ente que tenta, em vão, convencer-se de que é feliz, mesmo que para isso tenha que cerrar os olhos e cobrir os ouvidos aos ecos da dor do mundo?
Tire a longa e pesada capa de insensibilidade com a qual se veste. Tire também as máscaras de dono da verdade, dessas verdades que se quer acreditar como verdadeiras, únicas e absolutas. Vou mais além e ser mais dura: dispa-se como se caminhasse para o próprio velório. Sem bens e sem adornos. Apenas com a roupa que lhe cobre o corpo, pois é só com ela que estaremos no momento derradeiro.
Experimente o momento para a sós ficar com Deus. E à sua frente, coloque uma balança. Deposite de um lado a fé, o amor, a compaixão, a paciência, a piedade e o perdão, os verdadeiros alimentos saudáveis da alma. No outro, o orgulho, o cinismo, o ciúme, a ganância, a arrogância, a competição, a raiva e o ódio...
Mas seja honesto e aceite se a balança entornar para o lado dos sentimentos ruins. Porque mesmo que isso aconteça e que o peso seja muito grande, ainda dará tempo para mudar. Você ainda terá tempo para se reinventar e fazer o outro lado da balança subir.

Rosane Leiria Ávila
Crônica publicada no Jornal Agora (www.jornalagora.com.br), caderno Mulher Interativa

sábado, 18 de julho de 2009

Pequenos prazeres: seja boa para você mesma

Você já se sentiu deprimida e foi às compras? Seu astral estava baixo e foi para o salão - fez unhas dos pés, das mãos, cortou e mudou a cor dos cabelos como se agindo assim, cortasse o mal que lhe afligia? Calma... Não se mortifique pois você não é a única. Muito pelo contrário: faz parte de uma tribo de milhões de mulheres que, no meio de um surto de baixa-estima vai para as lojas e para os salões para se fazer “um agradinho”.

E é isso mesmo: agradar a si mesma, fazer um mimo por você faz bem até mesmo fora de um surto. Você não precisa esperar um dia especial para abrir aquele vinho maravilhoso que vem guardando há um tempão. Ou para vestir aquele esplêndido casaco italiano que você pagou em euros ou dólares. Você não precisa esperar uma data importante. E nem alguém importante como o príncipe dos seus sonhos de menina. Você é a sua rainha. Você é que é importante... E deve se bastar, e bastar tanto que justifique uma comemoração sem data e hora marcadas pelo calendário. Faça de hoje o seu dia mais especial. E o de amanhã também.

Sabe aquela pessoa que vivia guardando tudo para uma ocasião especial? Guardava coberta de mesa para jantar formal, o champanhe francês, (claro, senão é espumante), e até perfume? Guardava tanto tudo que se guardou da vida. Não viveu. Não desfrutou dos momentos presentes como únicos e como dádivas, achando sempre que o melhor ainda estava por vir... Ela queria estar sempre prevenida.

Pois é. Acabou morrendo de repente e suas relíquias guardadas para as datas especiais que nunca aconteciam, foram desfrutadas à luz do dia e sem cerimônia alguma. E dela a lembrança durou o tempo de sua herança, pois em vida não plantou gestos de amorosidade nem por si, nem pelos outros. Recolheu o que deixou: uma tênue lembrança a se diluir na brevidade das horas.

Pois então, mãos à obra: inclua quem você gosta nos seus “agradinhos” básicos. Não espere datas comemorativas. Não guarde seus sorrisos nem economize seus afagos como preciosidades para dar em dia especial. Dê hoje.

Sei de muitos casos e muitas histórias de pessoas que esperaram demais para se abrirem à vida, que a vida acabou se fechou para elas e lhes tomando o corpo de assalto. Ou, se abriram em pequenas e contidas doses insuficientes para desfrutar pequenos prazeres.

Não deixe para amanhã. Aliás, nem deixe para daqui a pouco. Há muitos jeitos e formas de fazer deste seu dia, um dia especial. Algumas poderão lhe parecer inicialmente insensatas, extravagantes e caras. Mas outras serão, com certeza, sensatas, econômicas e até mesmo grátis, como uma declaração ou um gesto de amor.

Você quer a sugestão de um livro cheio de ‘pequenos prazeres’? Pois é este mesmo o título dele, e há idéias para muitos mimos. Muitos para você mesma, outros tantos para outras pessoas. A esses, a autora dá o nome de ‘prazeres generosos’. (Pequenos Prazeres, Cynthia MacGregor, Publifolha)

Rosane L. Ávila MULHER INTERATIVA

pequenos prazeres4

Viagem no tempo

Esta é uma viagem não de verdade, dessas que a gente sonha, planeja, compra passagem e arruma mala com muitas roupas e expectativas...
É uma viagem no tempo passado, vivido, experenciado. Nesta viagem embarco na máquina do tempo do famoso professor Ludwig, amigo do professor Pardal (quem não se lembra dos quadrinhos do inesquecível Walt Disney?) e saio em uma aventura, por vezes, reparadora ao extremo. Por outras, de pura bulimia emocional.
O projeto ilusório já vinha há dias me aliciando. Principalmente, quando leio as notícias ruins nos jornais , internet ou as assisto na tevê. Só as perversas, sim, porque nas boas e alvissareiras, que são em número bem menor,  nem passaria pela cabeça contrafazê-las.
E foi exatamente lendo uma nota sobre o lançamento de “Para Sempre Teu, Caio F.”, de Paula Dip (Ed. Record) que essa viagem maluca acabou aterrissando no papel. O livro é uma biografia sobre um dos melhores escritores brasileiros (ele era gaúcho, natural de Santiago – 1948/1996), montado a partir de cartas, bilhetes e confidências trocadas entre Caio e sua amiga Paula, que conseguiu a proeza de resgatar um pouco da diversidade do escritor. Graças a ela, mais um pedacinhho de Caio ficará perpetuado na palavra escrita e editada.
Nessa máquina do tempo, durante a viagem, desacelero o progresso que atropelou a natureza, os costumes e tradições, derrubou árvores, devastou florestas, poluiu rios; colocou espécies em risco de extinção; revisito amigos antes da partida deles, encantada pela chance de alertá-los para o perigo que os vitimou. Desfaço atitudes feias, pequenas, baixas, mágoas impingidas, ressentimentos desnecessários.
Na máquina do tempo me reencontro até com minha avó e lhe digo que deveria ter gostado mais de mim quando pequenina, pois fui a adolescente chata que a levava da casa de minha mãe para a de minha tia durante seus surtos de ‘caduquice’. Hoje, conhecido por Alzheimer.
Na engenhoca do professor Ludwig alerto Lennon para não ir ao Central Park naquele dia, digo a Elis para se cuidar mais porque havia um caminho lindo ainda para ela trilhar; a Vinícius para beber menos e diminuir a boemia, e a Gonzaguinha para deixar a estrada para o outro dia, e não dirigir após o show...
Na incrível máquina de Ludwig conserto tudo: de gente a mundo. E impeço até atos bárbaros por motivos fúteis e inexplicáveis em todas as esferas: razão, emoção, espiritualidade... Como a tal chacina de uma família inteira por causa de meia galinha presenteada a um casal de invejosos vizinhos... É que o presente oferecido não foi a da melhor parte da ave, conforme alegaram os assassinos, que de uma só vez mataram o pai, a mãe grávida de gêmeos e três filhos.
Foi bom sonhar um pouquinho com a engenhoca de Ludwig.

Rosane L.Ávila

Mulher Interativaviagem no tempo