quinta-feira, 9 de julho de 2009

UM COGUMELO NO BREU DA NOITE

cogumelo

 

O cogumelo no breu da noite de lua cheia e de calmaria de ventos, brilhava assustadoramente no céu. Ou surpreendentemente. A primeira imagem que o pensamento que a visão me remeteu foi àquela famosa visão que o mundo jamais deve esquecer: a da Bomba de Hiroxima.

Passados alguns dias, eu ainda não sei se foi uma miragem dos meus olhos; fruto de minha imaginação, ou uma crise de sonambulismo.

O fato que lembro é que o meu segundo pensamento foi pegar a câmera fotográfica. Mas eu não consegui desgrudar meus pés do chão para pegá-la no armário.

Pensei se o tempo teria dado um pulo e se já estaríamos no tão falado 2012. Ou se o mundo, cheio de nós, tivesse resolvido se antecipar ao fim.

Bem, o relato acima foi um sonho dentro de um sonho. Mas quando acordei, de verdade, fiquei pensando no quanto vamos impingindo ao planeta, às pessoas, aos animais, à natureza, situações extremas sem sequer nos darmos conta da gravidade delas.

Mas acho que é quando a vida foge do corpo por motivos fúteis; ou por lapsos de uma consciência e responsabilidade maiores, que isso se torna mais nítido.

São exemplos disso, a Van Escolar sem qualificação para tal e em alta velocidade, que se chocou contra um caminhão-tanque na pista, matando quatro crianças no último dia 1º, no Rio; ou o motorista que sentiu-se incomodado pela vagarosidade do veículo à sua frente, ultrapassou-o e atirou no outro condutor, matando um jovem de apenas 22 anos, no mesmo dia, mas em São Paulo.

E, em meio a um caos, o improvável: a sobrevivência de uma adolescente de 14 anos no mar durante 12 horas, depois da queda do avião da companhia aérea Yemenia, que ia de Sanna, capital do Iêmen, para Moroni, capital das ilhas Comores. Personagem de um verdadeiro milagre, ela estava a bordo do Airbus A310 e foi a única sobrevivente entre as 153 pessoas que estavam no vôo.

São esses istmos que nos faz ter esperança num universo de desesperançosos acontecimentos.

Rosane Leira Ávila

http://www.jornalagora.com.br/site/index.php?caderno=48&noticia=67772

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Leilões íntimos



Enquanto pensava num tema para a crônica desta semana, por mais que vários assuntos pipocassem à minha mente, não me sentia atraída especificamente por nenhum. Até que por volta das 15h da última quinta-feira, precisei sair. O destino? Um leilão.
Você já foi a algum leilão? Eu nunca, até então. Pensei encontrar uma cena daquelas vistas em filmes - muitas pessoas confortavelmente sentadas num amplo salão, enquanto um impecável leiloeiro ia oferecendo os bens... Tipo leilão de artes, que é a referência eu tinha oriunda de filmes.
Mas, para minha decepção, o que encontrei foi um grande depósito entulhado de equipamentos, móveis, máquinas, computadores e eletrodomésticos velhos. Tudo caindo aos pedaços... Quase sucata coberta de pó. Mais parecia um brique do que um lugar onde bens em perfeitas condições de uso estão à disposição da Justiça para serem vendidos.
Olhei para a meia dúzia de pessoas que lá estavam, buscando o por quê de comprarem objetos que são mais entraves do que qualquer outra coisa.
O cenário me remeteu à vida de algumas pessoas cujas casas eu vi e se assemelham àquele depósito de leiloeiro. São geralmente pessoas que têm um alto grau de apego aos objetos, depositando neles fios indeléveis de saudosismos e links com um passado que não voltará jamais. Como se as lembranças não estivessem para sempre guardadas na memória. E isso já bastasse.
Para mim, pessoas assim são incapazes de se modernizarem, de arejarem seus espaços e suas próprias vidas, abrindo lugar ao novo... Pelo perfil, também têm dificuldades em colocar um fim em relacionamentos falidos, antigos e frustrados.
Se promovessem um “leilão íntimo”, se livrariam de todos os velhos e arraigados conceitos ou ressentimentos que acumulam por anos a fio.
A vida é curta - um breve sopro entre duas eternidades. Mas insistimos em viver como se tivéssemos um tempo infinito.
Na verdade, o temos. Mas não nesta vida presente. E é do presente que falo. Da felicidade. Da leveza. E da coerência que devemos ter nesta materialidade que nos ampare e sirva de lastro a uma próxima, que certamente virá. E dessa forma, com certeza, um pouco da ‘lição de casa’ já estará feita.
(Publicado no jornal Agora http://www.jornalagora.com.br/ em 06-07 jun 2009) 
 

sábado, 6 de junho de 2009

Quando a alma quer respostas

Liberdade e aventura. O filme não está estreando nos cinemas ou sequer é lançamento nas locadoras. Rodado em 2007, “Na Natureza Selvagem” tem direção de Sean Pean e traz no elenco Emile Hirsch, William Hurt e Catherine Keener.
“Into the Wild”, seu nome original, recebeu duas indicações ao Oscar e conta a história de um rapaz de 23 anos que resolve viajar pelos Estados Unidos´, logo após sua formatura na universidade.
Christopher McCandless, esse é o seu nome, quer buscar a si mesmo e encontrar o sentido da vida e a razão para se viver. Sem pressa de percorrer o caminho até encontrar a resposta ao seu questionamento, tem apenas uma idéia fixa e da qual não abre mão: ir sozinho para o Alaska em pleno inverno.
Até conseguir seu intuito, durante dois anos ele vivencia situações, pessoas e lugares diferentes. O interessante é perceber como a sua simples decisão afeta, e por vezes altera, a vida das pessoas com quais vai travando conhecimento. E que ao decidir ser um viajante solitário  apagando rastros para não ser encontrado, não tinha ainda noção de como a dor que deixou como legado a seus pais os melhoraria interiormente.
O filme é baseado no livro "Into the Wild", de Jon Krakauer, e conta a história verídica desse rapaz introspectivo e pertencente à rica família McCandless, de Atlanta, EUA, que autorizou sua divulgação.
Com uma bagagem cultural grandiosa, ele é imbuído de uma pureza de sentimentos e inconformidade com a mesmice. Quer entender por que milhões de pessoas buscam na riqueza externa o apoio para suas migalhas interiores.
Para sair da casa dos pais, o rapaz se despoja de tudo - dos quase 24 mil dólares reservados para o seu futuro, do carro antigo e de tudo que possui um valor monetário.
Para sobreviver, vai prestando pequenos serviços por onde passa. E viajando de carona em carros, caminhões ou em vagões de carga de trens.
Sua alma anoitece, amanhece, se alegra, se entristece; se enriquece e se anuvia em sua caminhada de busca.
Quando encontra sua resposta - e ela é tão simples - já é tarde demais para ele, que torna-se refém da natureza.
O filme é delicado e sensível e nos obriga a uma reflexão. Ou a várias. A principal delas é que sempre buscamos complicar as coisas para poder explicá-las com a arrogância de um falso saber. Quando no fundo, tão pouco sabemos a respeito de nós mesmos como seres atrelados a constantes reinícios e fins. Sempre a buscarmos o que é tão evidente. Mas que por ser assim tão evidente, nos deixa completamente cegos à sua luz de consciência e sapiência.

Rosane Leiria Ávila

Publicada no Jornal Agora http://www.jornalagora.com.br , caderno Mulher Interativa, 30-31 de maio de 2009.na

sábado, 16 de maio de 2009

LEITURA - MAIS FELIZ QUE DEUS


A vida foi feita para sermos felizes. Você acredita nisso? É verdade. Sei que pode não parecer quando você olha à sua volta, mas é verdade. A vida foi feita para sermos felizes. Você existe para ser feliz. E se por acaso você é feliz, deveria ser ainda mais. Mesmo que você já seja muito feliz, pode ser ainda mais. Quanto mais? Exatamente quão mais feliz você pode ser? Bem... você pode ser mais feliz que Deus”.

Se você já leu algum livro de Neale Donald Walsch certamente reconheceu sua linguagem e seu modo incisivo de conversar com o leitor. Autor da série “Conversando com Deus”, obra traduzida para 37 línguas, lida por milhões de pessoas e que figurou por dois anos e meio na lista dos mais vendidos do New York Times, ele agora volta a afirmar que temos o poder de transformar nossa vida numa experiência extraordinária em seu mais novo livro “Mais feliz que Deus”.

Mais feliz que Deus”, 184 páginas, R$ 29,90 é uma publicação da Agir Editora.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Vilões


Vilão, vilãs... Há histórias para contar sem a presença deles? Praticamente impossível. Pelo menos eu não consigo lembrar alguma. Seja em telenovela, livro, cinema ou peça de teatro e até mesmo em letras musicais. Parece que há sempre uma balança onde o bem e o mal deve ser pesado. Os bons de um lado e os ruins do outro.

Embora algumas histórias – famosas por sinal -, elejam apenas um vilão e nele centre todo o enredo da trama, o que se percebe atualmente é que essa fórmula está ficando em desuso. Ou não estava mais surtindo efeito, pois o que se tem assistido é uma profusão, ou melhor, uma salada de vilões em um mesmo folhetim. Vejam o exemplo da novela “Caras & Bocas”, de Walcyr Carrasco. Mãe, filha, filho, ex-namorada, pai dela e outros tantos que se movimentam apenas no intuito de praticar o mal contra a mocinha da trama, interpretada por Flávia Alessandra.

Isso nos deixa confusos quanto ao recado que o autor quer passar... Poderia ser a mensagem de que o mundo é deles? A beleza e o sucesso também? E o carisma? A boa moça ou o bom rapaz se tornaram chatos, insípidos? Excetuando-se as velhas histórias infantis onde a bruxa era feia, velha, desdentada e cheia de verrugas, as malvadas de hoje possuem beleza e ambição social e intelectual, pois são esses as chamas da vaidade que alimentam o ego. E o ego cobra sempre mais de quem tem uma baixa auto-estima. Por mais contraditório que isso possa parecer.

Em um passado ainda recente, o Brasil assistiu as maldades da personagem Flora, interpretada magnificamente por Patrícia Pilar na novela “A Favorita” da Globo. Nos capítulos finais quase se sublimou as maldades dela, tamanho foi o seu carisma. A personagem se valeu da beleza e da escolha de um visual impecável no vestir, tornando agradável a visão da sua imagem. Foi uma química perfeita. Enquanto mocinha, na primeira parte da trama, era o típico patinho feio.

Em “O Bem, o Mal e mais Além”, o psiquiatra e escritor Flávio Gikovate faz uma reflexão entre os generosos e e os egoístas, leia-se bons e maus, e como um olhar mais aprofundado sobre os dois nos faz perceber que, por vezes, há uma linha tão tênue entre eles que se torna extremamente difícil estigmatizá-los. “O bem e o mal não são entidades afetivas; são construções, quase mitos, que foram elaboradas ao longo dos milênios e, de certa forma, transformadas em uma dualidade tida como inevitável. Deus e o Demônio lutam e lutarão para sempre! Assim, o bem depende do mal para se definir e ter existência, da mesma forma que o mal é definido por comparação com o bem”, diz Gikovate.

Devemos deixar de nos comportar como viciados das sensações que adulam o nosso ego. Há uma saída para nós reagirmos ao mal, deixando-o refém dos folhetins. O próprio Gikovate aponta a direção: “É preciso muita força interior para resistir às pressões que sofremos para aderirmos às tentações. Precisamos estar conscientes e atentos o tempo todo.”  

Rosane Leiria Ávila (publicado no caderno Mulher Interativa, do Jornal Agora, www.jornalagora.com.br, ed. 16 e 17 de maio de 2009)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Esperança nos vôos dos Falcões


Quando o homem se socorre da vida animal para proteger o próprio homem, a gente pensa que pode, sim, existir algum respeito ainda. E reconhecimento pela vida inteligente do reino animal. 
O aeroporto Salgado Filho em Porto Alegre treina desde o ano passado oito falcões para a segurança do local. Essas aves terão como missão evitar que outras aves provoquem acidentes às aeronaves. A medida já vem sendo utilizada de forma experimental em Minas Gerais e é utilizada na Europa, Chile e Argentina. Mas o Rio Grande do Sul poderá sair na frente no inusitado controle de segurança dentro em breve, com o treinamento dado por concluído.
Os falcões foram treinados pelo biólogo Gustavo Trainini e estão aptos a identificar e atacar outras aves nas imediações do Salgado Filho. A conclusão também é de que somente a figura do predador no céu faz com que as outras aves se evadam. Além disso, o método tem a vantagem de ser 100% ecológico.  
Mais ou menos como aquela velha história que cresci escutando: gatos afastam ratos. Os mais antigos diziam que apenas o cheiro de um gato em uma casa era suficiente para que os ratos não passassem por perto. Os roedores mais ousados ou aqueles que desacreditavam de seus instintos, viravam almoço ou jantar do felino. 
Há alguns anos, li uma notícia de que o governo italiano estava incentivando os cidadãos de algumas cidades históricas da Itália como Roma, Nápoles e Veneza a criarem gatos. Isso porque haviam colônias de ratos e isso prejudicava o turismo. 
Se essa atitude do homem de socorrer-se do reino animal não fosse tão tímida se comparada ao que ele maltrata e desrespeita, seria um fato alvissareiro. Mas o que se vê é que os animais são tratados de forma indecente e inaceitável. Perdem a vida por causa da luxúria de mulheres, sofrendo escalpelações em vida para que suas peles não sofram prejuízos econômicos na morte. São privados de viverem com um mínimo de dignidade ao serem confinados em míseros espaços em fazendas criadouras, ou em transportes “de carne viva” em navios escravos, em cenas que excedem a compreensão de quem se aventura a pensar a respeito. 
O que alenta por um lado é que mesmo tímidas, ações desse tipo ocorram. Por outro, que existam pessoas que fizeram da sua voz, a voz dos animais. Que denunciam, lutam, se dedicam e se sacrificam para defendê-los. 
Neste mês de maio um evento oferecerá uma boa oportunidade para quem quiser conhecer melhor a realidade por trás das pesquisas. O 1º Seminário Regional dos Direitos dos Animais, intitulado "O Ensino e a Pesquisa sem Crueldade", que ocorre no próximo dia 14, às 19h, no Auditório das Promotorias de Justiça de Pelotas, discutirá fatos éticos e jurídicos na utilização de animais no Ensino e Pesquisa. A grande maioria das pesquisas que utilizam animais são desnecessárias e os laboratórios se assemelham a Auschwitz. O evento contará com a presença do promotor de Justiça de Laerte Fernando Levai, e é promovido pela SOS Animais (Pelotas) e Amigo Bicho & Cia (Rio Grande), com apoio do Ministério Público do Rio Grande do Sul.

Rosane Leiria Ávila
[Publicado no Jornal Agora www.jornalagora.com.br, caderno Mulher Interativa, 2 maio 2009]

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Poucas e... nada boas


Ufa! Finalmente o BBB9 chegou ao final. Embora eu não tenha assistido a um mísero episódio sequer, a exemplo dos seus antecessores, é um alívio saber que a tevê ficará livre de tanta bobabem! Como se o Brasil fosse uma maravilha, os serviços funcionassem bem; não houvesse violência nem descontrole da miséria ou desvalorização da vida, e os brasileiros, não sabendo o que fazer com o ócio de uma vida boa, tivessem como única opção direcionar a atenção aos BBBs. 
Ora, o dito programa televisivo chegou ao final com uma audiência maciça, como se não  houvessem problemas suficientes para os quais o povo devesse realmente “estar ligado”.
Nesta semana, apenas para citar um ínfimo 'probleminha' na ponta de um iceberg gigantesco, o Senado criou novas regras para divulgar atos administrativos. Na prática, restringiu o acesso de jornalistas a informações importantes ao povo, e só responderá as perguntas feitas pela imprensa até cinco dias depois. A desculpa? Normatizar o serviço, já que o número de solicitações é muito grande e os 'técnicos' precisam de 'tempo' para responder. Mas na verdade, essa nova regra só foi adotada após o Senado se tornar alvo de inúmeras denúncias de irregularidades administrativas. 
Entre os 'arranjos' que vieram à tona através da imprensa, está o pagamento de horas extras durante o recesso parlamentar de janeiro para mais de três mil funcionários do Senado. 
Ou a da senadora e líder do governo no Congresso, Roseana Sarney (PMDB-MA), que resolveu “bancar” com cotas de passagens do Senado, a viagem de sete parentes, amigos e empresários do Maranhão para Brasília. 
Ah, tem ainda os mais de  R$76 milhões que a Câmara dos Deputados vai gastar na reforma de apartamentos funcionais em Brasília. 
A propósito: quanto é destinado e chega para a Saúde, mesmo? O Hospital de Clínicas de Porto Alegre, que imagino ser apenas um de tantos por este país afora, está sofrendo uma ação judicial porque, para poder se gerir, está também atendendo convênios particulares, ao invés prestar serviços somente a pacientes do SUS. Mas, segundo o hospital, a verba que o Ministério da Saúde faz chegar ao seu setor financeiro é insuficiente para manter a instituição funcionando.
Ah, bem! Você não sabe o valor da verba, não é? Tudo bem, eu também não. Só o que sei é que não quero que a imprensa e os jornalistas não sejam 'amordaçados' por uma democracia mascarada. Por um regime democrático que  nos obriga a votar, quando o voto deveria ser uma opção de todo o cidadão. E que a 'tal obrigação', leva às urnas milhares de brasileiros que teoricamente não teriam condições de discernir o que é certo do que é errado, e que acabam legitimando parlamentares espertinhos e suas más ações políticas, que acabarão se voltando contra eles próprios, ou melhor, contra todos nós, o povo!
Sorry! Era para falar da Páscoa! Mas não deu porque está faltando cada vez mais ao ser humano amorosidade e respeito pelo próximo. E isso, em minha modesta opinião, está se tornando cada dia mais utópico. Melhor então, encerrar com aquela famosa e batida frase da apresentadora Ana Maria Braga: “Acorda Brasil”!

Rosane Leiria Ávila
Publicado no Mulher Interativa, 11-abril-2009
JORNAL AGORA
www.jornalagora.com.br (link Mulher Interativa)

Verdades & Mentiras

Por que é tão difícil lidar com a verdade e tão mais fácil falar uma mentira? E por que as pessoas tendem a se magoar com uma verdade, quase obrigando as outras a trapaceá-las com uma mentira?

Pensei sobre essa relação estreita e delicada entre verdade e mentira nesta semana, quando ouvi o desabafo de uma amiga. Atendendo um pedido de sua mãe, ela estava hospedando uma amiga desta há cerca de um mês. E, diante da iminência da visitante ficar por um prazo indeterminado, precisou usar do artifício de uma mentira para ter de volta a sua privacidade. Sua vida estava se tornando um caos. O marido lhe disse, à queima-roupa, que não agüentava mais. “E olha que ele é a pessoa mais calma e pacienciosa que conheço”, disse-me ela. 

Minha amiga o viu no limite e temeu pelo que pudesse vir a acontecer ao relacionamento dos dois, e pelo estresse que surgiria com a mãe dela se fosse deflagrada uma explosão verbal. Afinal, aquela senhora era a melhor amiga da sua mãe e estava cuidando do irmão na UTI de um hospital, sem qualquer previsão de mudança no quadro clínico. “Meu marido a escutou falar ao telefone com parentes em sua cidade e compreendeu que haveria uma substituição nesse ‘plantão’, ou seja, ela iria embora e viria outra pessoa substituí-la. E para ficar na nossa casa!”, contou-me alarmada.

O assunto é prato cheio para análise e embora já tenha sido exaustivamente debatido, continua como uma intrincada peça de perdas e ganhos em nosso dia-a-dia. Os que dizem a verdade, geralmente são considerados ingênuos e, não raras vezes, ganham inimigos. Existe até um cálculo de que a cada cinco minutos uma mentira vem aos lábios, contabilizando uma média de 200 vezes por dia.

Segundo a psicóloga americana Bella DePaulo, da Universidade da Virgínia, EUA, os cônjuges e familiares são vítimas de dois terços de todas as mentiras graves. “Sorrimos diariamente com um olhar inocente para manter uma boa atmosfera, ou para nos apresentar sob uma luz mais favorável”, diz ela. 

Mas não é preciso se enganar também que mentira tem que ser elaborada. Afirmações falsas ou falsos elogios igualmente são mentiras, mesmo aquelas comuns tipo: “você está mais ótimo mais magro ou mais gordo”, ou ainda “não fui trabalhar hoje porque estou gripado”, numa afirmação deslavada.

Li em algum lugar que existe apenas uma diferença entre a verdade e a mentira: a mentira é sempre verossímil. Já a verdade, na grande maioria das vezes, é inacreditável. Ou inaceitável.


Rosane Leiria Ávila (POA, 1º de abril de 2009)

Publicado no Mulher Interativa (http://mulher-jornalagora.blogspot.com) / Jornal Agora (www.jornalagora.com.br)

sábado, 18 de abril de 2009

"Pode ser que a mão se feche"



“Pode ser que a mão se feche, mas hoje ela se abriu...”, disse o maestro João Carlos Martins ao usar sua mão pela primeira vez em um show, depois de oito anos e após nove cirurgias. Ele estava eufórico e não era para menos, pois conseguiu tocar com todos os dedos da mão esquerda, na comemoração dos 455 anos de São Paulo, no último dia 25. Pianista e maestro de reconhecimento internacional, ele é considerado um dos maiores intérpretes de Bach do mundo.

Aos 26 anos, por causa de uma queda em um jogo de futebol, ele perdeu parte dos movimentos da mão direita. Na seqüência do tempo teve LER (Lesão por Esforço Repetitivo) nesta e retirou um nódulo da esquerda. Não fosse o bastante, ainda sofreu uma lesão no cérebro ocorrida após um assalto na Bulgária e que afetou o movimento de sua mão direita.

A euforia do maestro com a conquista advém da sua capacidade de superação. De acreditar que não há limites para o corpo quando a mente determina. Ou quando a fé impulsiona. O ato de se superar determina a diferença entre a alegria e a tristeza; a piedade por si mesmo e o respeito; entre a vitória e a derrota; o amor e o ódio; a resignação e a coragem...

Todos os dias chegam até nós exemplos de superação, através de pessoas que vão além dos seus próprios limites. Há pessoas que perdem um braço, uma perna. Ou ambos. Que se tornam cegas. Paraplégicas. Tetraplégicas. Que perdem quem mais amam. Ou a família inteira. Depois do primeiro impacto, continuam em frente, reerguem-se, voltam a acreditar na vida e nelas mesmas. E voltam a sorrir.

Não fosse assim, acho que o próprio homem não sobreviveria à dor e às perdas causadas pelo seu próprio mal. Não raras vezes, algumas notícias nos deixam pasmados. Como as dos últimos noticiários sobre o genocídio na Faixa de Gaza e a do traficante mexicano, que confessou ter dissolvido 300 corpos com corrosivos químicos. As duas são de horripilar. No Oriente Médio, corpos dilacerados espalham-se pelos corredores dos hospitais. A fúria israelense desconsidera civis, crianças e mulheres. No México, após o anúncio, o país entrou em comoção. E não foi para menos. Centenas de pessoas acorreram na esperança de localizar corpos de parentes desaparecidos numa guerra de narcotráfico que já fez mais de 5,7 mil vítimas só em 2008.

Por isso tudo, e em meio a esse caos de notícias cotidianas, é que a nota sobre o maestro se torna indelével. Quando ele encerrou a apresentação na praça Victor Civita, estava emocionado. O público também. E ambos choraram.

Rosane Leiria Ávila (rosaneleiria@gmail.com)

Publicado no Mulher Interativa (Jornal Agora, 1º/02/2009)