segunda-feira, 31 de maio de 2010

Os pombos



Enquanto fazia um lanche no horário em que todos – ou quase todos – almoçam, sentada em um banco de uma praça, de repente minha dispersão foi interrompida por três pombos.
Como quem não quer nada, eles lentamente começaram a se aproximar. Ainda que desconfiados, a curiosidade deles parecia ser maior do que o receio de uma reação hostil de minha parte. E o interesse também. Afinal, fosse pelo cheiro do lanche ou pelas íntimas migalhas caídas no chão, o fato é eles resolveram apostar, mesmo sendo eu um ser estranho.
Inicialmente, não mexi um dedo nem fiz nenhum gesto amigável. De propósito, lógico, no intuito de instigá-los e, dessa forma, melhor observar seus comportamentos. Depois, devagar fui esticando as pernas. Um, que já estava mais próximo, recuou estrategicamente. E, sabem? Olhou diretamente para mim. Sei que posso parecer doida, visionária, sei lá... Ainda mais porque foi diretamente para os meus olhos.
Ali ficou quieto, apenas piscando e esperando um gesto meu. Nada. Eu me divertia com o fato. Com a minha aparente inércia, os outros começaram a se aproximar, devagar.
Pelo visto, o que estava mais próximo e me observava era o chefe. E a um sinal seu, os outros se aproximariam ou se afastariam.
Resolvi fechar os olhos para ver o panorama mudar quando os abrisse. Estava tão certa de que isso mudaria, que quase apostei intimamente. Certa? Claro que sim! Agora, ele, o chefe, estava no banco ao meu lado. E os outros dois praticamente nos meus pés.
Deslizei, o mais devagar que pude, as migalhas que estavam no guardanapo. O pombo no banco começou a comê-los. Depois, ao invés de ir embora, aproximou-se mais. Ora, pensei, teria ele visto em raio-X que em minha bolsa havia outras coisas que o interessavam?
O tempo havia se esgotado e eu precisava retornar. Levantei-me no mesmo instante em que ele voou. Mas, pelo visto, não queria apenas as migalhas do meu lanche, pois começou a caminhar à minha frente no passeio de areia da praça em direção à calçada, simulando um bailado como se estivesse fazendo um convite a uma estranha amizade.
Só levantou voo quando acelerei o passo, acenando para o ônibus que se aproximava do meio fio.
Voltei à mesma praça e ao mesmo banco no dia seguinte. Desta vez, com um pacote de guloseimas especialmente atraentes para pombos.
Foi só sentar e aguardar poucos minutos de olhos fechados, pois tinha certeza de que quando os abrisse, ele estaria lá.
E estava. Agora, de segundas as sextas, temos encontros agendados.
Rosane Leiria Ávila
Jornal Agora



Nossos sonhos



Uma amiga revelou-me que não sonha. Nunca sonha. Bobagem. Ela sonha só que não consegue se lembrar depois. Ela também ficou escandalizada quando lhe devolvi em confidência: “Eu sonho todas as noites e em muitas, mais de um sonho. Também costumo anotá-los e alguns acabam até virando crônicas”.
Minha mãe, por exemplo, sempre gostou de decifrar sonhos. Seus e os das filhas, das netas... Ou pelo menos tentar. Por conta disso, quando pequena ficava fascinada achando que ela podia olhar nossas cabeças enquanto dormíamos, como uma bruxa olha sua bola de cristal.
Sonhar é muito bom mas também muito íntimo. Não podemos sair por aí contando nossos sonhos. Segundo o pai da psicanálise, Sigmund Freud  (1856 – 1939), à medida em que o ego adormece, afrouxavam-se os laços do sensor liberando o acesso aos nossos impulsos mais reprimidos e linguagens inconfessas.  Dizia também que sempre costumamos sonhar entre as 6h e às 8h, de três a cinco vezes, e praticamente de 90 em 90 minutos. Concordo com a quantidade, mas juro que os meus começam tão logo adormeço.
Já o Carl Jung (1885 -1960), que estudou os sonhos por mais de dez anos, concluiu que eles são uma porta de acesso a outras dimensões. Todos os personagens, emoções e situações remetem a uma jornada onírica como ser.
Jung trabalhou inicialmente com Freud na pesquisa dos sonhos. Um dia, exaustos, adormeceram e sonharam. Foi quando descobriram que o sonho está dividido em cinco partes: a RAM, a REM, a RIM, a ROM e a RUM. Depois de algum tempo, eles se dividiram em suas interpretações ao sonho.
Os sonhos tentaram ser interpretados já na antiga Grécia. Em tempos mais recentes, a psicoterapia tem três correntes: Freud, Yung e Erich Fromm. Este último defende que questões econômicas influem na capacidade dos indivíduos sonharem. E define: "Nosso Eu, como ser social, e a sociedade influenciando no meu sonhar".
Eu, particularmente, aceito e gosto da definição de sonho pelo Xamanismo: "Os nossos sonhos pertencem a um tempo e a um espaço". Filosofia de vida muito antiga, seus os ensinamentos baseiam-se na observação da natureza e seus sinais: sol, lua, terra, água, fogo, ar, animais, plantas, ventos, ciclos, enquanto que seus objetivos básicos são reconectar o ser com sua sabedoria interior.  
Para mim, está perfeito.
Rosane Leiria Ávila
Publicado no Jornal Agora
www.jornalagora.com.br

domingo, 2 de maio de 2010

Juriti, o cão-carteiro

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Ele chegou à casa da fazenda levado por um empregado que o encontrou, pequenininho, sozinho e perdido na estrada de terra batida. E longe, muito longe de qualquer civilização.
Tão pequeno que ainda mamava. E como não tinha mãe, foi criado pelo dono da casa com a mamadeira que havia ficado guardada num canto do armário, quase mofada, depois que a filha cresceu.
A vida que tinha iniciado de forma azarada, sorriu para Juriti. Sim, ele recebeu esse nome meio estranho, não sabia tirado de onde. Porque, mesmo sem o leite materno, sorvia com sofreguidão a mamadeira repleta de leite recém tirado das vacas ou das cabras.
Juriti crescia mais rápido que o tempo, e em poucos meses se tornou um cão alto, com pêlo duro e branco e magníficas orelhas pretas, o que lhe conferia um charme todo especial.
Também logo em seus primeiros dias na casa despertou a atenção de todos para sua inteligência: não havia coisa que não aprendesse rapidamente. E, muitas vezes, apenas com um ou dois ensinamentos.
Tomou gosto por tudo – corria atrás das galinhas por puro divertimento, pois era de boa índole e nem lhe passava pela cabeça machucar qualquer uma delas. Os coelhos, quando saíam das tocas, também eram motivo de correrias e brincadeiras de Juriti. Isso sem falar que simpatizava especialmente com aquelas que lhes forneceram o substancioso leite que o criou forte e belo: as vacas.

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E era com elas que Juruti passava longos períodos no campo, ajudando na hora de salvaguardá-las dos perigos à noite, assim como as cabras. Com uma performance tão amigável e inteligente, Juriti foi um dia convidado a sair na charrete da casa que fazia às vezes de correio ou transporte de mercadorias.
Pois então! Foi através desses passeios de charrete que Juriti ‘conheceu o mundo’ e ganhou o gosto de se afastar por longas horas da casa da fazenda. Passou a sumir um dia, para voltar no seguinte. Depois, por dois dias, três... No início, todos se preocuparam. Mas como ele sempre voltava, relaxaram.
Bem, relaxaram não é o termo mais apropriado. Na verdade, tiveram a feliz ideia de o transformarem num ‘cão-correio’. Naquela época – ah, esqueci de dizer antes que a história se passou há uns 70 anos e foi resgatada na memória de minha mãe -, as coisas eram mais complicadas e uma casa ficava distante de outra várias léguas. Tudo era longíssimo. Mas bastava dizerem pra ele: “vai” e ele ia, atravessando campos e campos...
Então, Juriti passou a trabalhar também como entregador de bilhetes. Fizeram-lhe, sob medida, uma carteirinha de couro presa a uma coleira. Nela, tomaram o hábito de uma vez por semana escrever aos amigos na vizinhança.
E Juriti, unindo o útil ao agradável, estufava-se de orgulho com tão importante missão. As semanas e meses se passavam entre entregas para lá, respostas para cá. Todos elogiavam o trabalho do cão-carteiro.
Todos, não. Uma alma virada do avesso resolveu fazer uma brincadeira de mau gosto e interceptar uma entrega. No meio do caminho, atraiu a atenção do cão, fez-lhe um afago, deu-lhe um biscoito e substituiu o afável bilhete que ele levava por outro, repleto de palavrões.
Sem nada desconfiar, Juriti seguiu seu caminho até a casa onde a correspondência se destinava. Mas, qual não foi sua surpresa ao ver, minutos após a entrega, esta ser lida aos gritos, ao invés das amabilidades tão costumeiras. A dona da casa chamou a filha, que chamou o irmão, que chamou o pai. O conteúdo do bilhete obsceno deixou todos chocados. E eles decidiram escrever outro em troca, cortando os laços de amizade com seus tutores. 
Juriti sabia que algo horrível havia acontecido. Cabisbaixo, voltou para sua casa levando o dobro do tempo no percurso, tamanho era o seu abatimento. A brincadeira de mau gosto pôs fim à sua carreira de mensageiro e a ele nunca mais foi confiada missão semelhante.
Até morrer, alguns anos mais tarde, Juriti não compreendeu o quê havia feito para ter seu trabalho suspenso.
Rosane L. Ávila

http://mulher-jornalagora.blogspot.com/

Twitter – rosaneleiria

domingo, 25 de abril de 2010

Nas Nuvens

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Quando pequena, achava que ia ver Deus nas nuvens. Cresci e continuei me encantando com elas. E, no fundo, infantilmente, sempre procurando nelas imagens à semelhança da figura de um velho e bonachão senhor que nos acostumamos a ter Dele.
Tanto, que um dos meus passatempos prediletos, ou melhor, ócio religioso, é me perder na contemplação do azul do céu, admirando as nuvens que mudam rapidamente formando figuras desenhadas por minha imaginação.
Na espreguiçadeira, herança precoce pela morte de meu pai, muitas tardes de verão me espalhei admirando as nuvens. Da infância à adolescência, colecionei figuras e sensações com as cores do céu e das nuvens. Nas mais variadas nuances – com a luminosidade de dias claros e alegres, ou no acinzentado sinistro dos prenúncios de temporais.
Cheguei até mesmo ao ápice da infantilidade de acreditar que elas eram macias, e que ao toque dos meus dedos me proporcionariam a sensação de leveza que advém de uma bola de algodão.
POESIE-POESIA-POESIA
Até hoje reservo um momento do meu dia ou da noite para olhar para o céu, não importando se estou indo para a cama, caminhando pela rua, espichando os olhos pela janela do carro ou daquela pequenininha de avião. Mas nesse último posto observatório, uma pontinha de grandeza toma conta de mim no sonho realizado: afinal, lá estou eu finalmente sentada nas nuvens!
Ou então, quando já no portão do prédio subo correndo os dois lances de escadas para enfiar na bolsa, às pressas, a câmera digital. Sei que pela rua encontrarei ‘muitos céus e muitas nuvens’. E que vou querer guardá-las para quase todo o sempre no meu momento nada eterno. Com flash ou sem, tipo portrait ou não, vou captando imagens de todo o jeito, de toda cor, em qualquer lugar, em qualquer céu.
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O Aurélio me indica mais de meia dúzia delas (alta, ardente, atômica, baixa, estelar, média, noctilucente, derramadeira). Ou ainda as nuvens de estrelas e a Nuvem de Magalhães (duas nuvens estelares visíveis a olho nu e próximas ao Pólo Sul, descobertas pelo navegador português Fernão de Magalhães, 1480-1521), enquanto a canção “Sky blue Sky” (Céu, azul Céu), da banda Wilco (country alternativo) vai embalando o emaranhado de palavras desta crônica tão simplesinha e sem um final aparentemente conclusivo.
Mas, como muitas coisas que aparentam ser algo que não são, fica a suspeita de que talvez eu já tenha pulado do útero de minha mãe olhando as nuvens pela janela de uma maternidade, em noite estrelada de um quase verão.
Rosane Leiria Ávila
Jornal Agora (www.jornalagora.com.br)

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Responsabilidade: moral ou social?



Na dúvida, escolha os dois. Palavra simples e corriqueira - mas muitas vezes de difícil assimilação em seu sentido amplo, a responsabilidade pode ser dividida em duas situações: moral e social. Na moral traduz a situação de um agente consciente com relação aos atos que ele pratica voluntariamente; ou em seu inverso - na obrigação de um agente inconseqüente de reparar o mal que se causou a outros.
Já no que diz respeito à responsabilidade social, segundo o Livro Verde da Comissão Europeia, é um conceito no qual as empresas decidem, voluntariamente, contribuir para uma sociedade mais justa e para um ambiente mais limpo. Mais claramente, o conceito de responsabilidade social deve ser entendido em dois níveis, segundo Carlos Cabral-Cardoso, autor do livro “Manual de Gestão de Pessoas e do Capital Humano”: interno e externo.
O nível interno diz respeito aos trabalhadores e a todas as partes interessadas e afetadas pela empresa e que, por seu turno, podem influenciar os seus resultados. Já o nível externo leva em conta as consequências das ações de uma organização sobre os seus componentes externos, nomeadamente, o ambiente, os seus parceiros de negócio e meio envolvente.
Juntar lixo seco e aguardar, com paciência o dia da coleta; comer bala e não jogar aquele ínfimo papelzinho no chão; levar sacolas de tecido às compras ao invés de voltar para casa carregado de sacos plásticos; escolher nas prateleiras dos supermercados produtos concentrados cujas embalagens são menores; ou ainda, dar preferência aos biodegradáveis (e de quebra, que não sejam testados em animais) são atitudes simples e ao alcance de qualquer um.

Qualquer um?! Sim. E em qualquer nível social. Para quem assiste o quadro da Band, “Esse lixo é teu: lugar de lixo é no lixo”, aos domingos no mesmo horário do Fantástico, vê que isso é possível. E viável. Basta apenas um pouco de boa vontade e o parco entendimento de que aquilo de ruim que fazemos, seja aos outros ou ao meio ambiente, volta-se para nós se tornando o nosso algoz, ou seja, de vítima passa a ser agressor. Veja os exemplos das enchentes e caos nas grandes cidades após algumas horas de chuva.
Nos negócios, a responsabilidade social se tornou um dos fatores de competitividade. Se no passado o que identificava uma empresa competitiva era basicamente o preço de seus produtos, hoje se sabe que investir no permanente aperfeiçoamento das relações com clientes, empregados, parceiros, colaboradores e fornecedores, no fabrico de produtos e prestações de serviços que não degradem o meio ambiente, tornou-se também um ótimo negócio. Além disso, as empresas começaram a participar do desenvolvimento da comunidade da qual fazem parte, fazendo disso um diferencial cada vez mais importante na conquista de novos consumidores ou clientes.
Pelo retorno que tudo isso propicia para o futuro do país, seja econômica, ambiental ou socialmente, é que o movimento da Responsabilidade Social Empresarial vem crescendo bastante no Brasil nos últimos tempos. E quem lucra é a sociedade. (Com informações do Instituto Ethos).

Rosane Leiria Ávila
Publicado no Jornal Agora - caderno Mulher Interativa 

Dual


Um... Dois... Um... Dois... Os dedos tamborilavam impacientes na mesa, enquanto a cabeça saía solta pelo mundo. Queria fazer tanta coisa, justamente agora que se sentia no fim...
- Como assim, no fim? Indagou-lhe a amiga sem entender como alguém com 38 anos, bonita, vida confortável, podia se sentir acabada. Ou partindo desta para uma melhor. Alias, seria melhor mesmo? Afinal, quase todos são pecadores e o destino certo é o Inferno.
- Claro, sua boba. O Inferno não é num lugar longínquo como sempre a Igreja nos quis fazer acreditar. É aqui mesmo, na Terra. Nesta terra que meus olhos ardem de ver, retrucou.
Estava enjoada do noticiário diário: traições, guerras, bombas, terremotos, assassinatos, abusos de crianças, violência contra os animais, poluição, destruição, degradação do meio ambiente, maracutaias e sacanagens políticas... Sentia náuseas por causa de tanta coisa sem sentido... O medo e a incerteza batendo todo dia no vidro do carro quando saía...
- Ah, não. Você só está olhando para coisas ruins. O Planeta é mais. É luz, é beleza, é perfeito nos detalhes da natureza. Caprichoso no som das florestas ou no murmúrio das ondas dos oceanos argumentou a outra.
Mas ela fincou pé na assertiva.
- As florestas estão sendo derrubadas, os animais silvestres mortos ou traficados, as madeireiras ilegais deixam grandes extensões áridas na Amazônia. O governo agora quer fazer a usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu que ameaça afetar o rio Xingú e destruir grandes territórios dos índios caiapós e ribeirinhos. Será que é necessário como ele diz ser, mesmo? De verdade? Você sabe que a verdade não chega até nós, pobres eleitores e cidadãos comuns. Fica desfigurada pelos caminhos tortuosos e manipulados que percorre. 

Meu Deus, quanto pessimismo! O que você queria? A população dobrou nas últimas três décadas. Então, são necessários investimentos para grandes massas populacionais, retrucou a amiga.
Um... Dois... Três... Um... Dois... Três... Agora seus dedos estavam mais nervosos ainda. Encarou a outra com medo de se descontrolar e, a qualquer instante, pular no seu pescoço.
Mas, ao invés disso, desviou o olhar. E foi então que viu sua imagem refletida na vitrine da mega loja no passeio do shopping. Ela estava sentada numa dessas cafeterias no meio dos corredores. Sentiu estranheza e um profundo estremecimento. Aquela não era ela. A imagem era de uma senhora de 80 ou mais anos, já curvada pelo tempo. Cabelos brancos, rugas na face, mãos deformadas pela artrite.
Estendeu o olhar e procurou a imagem da amiga sentada à sua frente. De novo, outro susto. Aquela sim era ela. Estaria ficando louca?
Olhou para frente, buscou o olhar da amiga e lhe suplicou que olhasse para a vitrine.
- O que você vê? O que vê? - perguntou aflita.
Então, depois de infindáveis instantes a amiga voltou a cabeça lentamente para a direção dela e lhe disse:
- Eu vi o tempo.

Rosane Leiria Ávila 
Publicada no Jornal Agora - Mulher Interativa

domingo, 4 de abril de 2010

Falar ou silenciar?


Quando falar e quando calar? Saber falar é um dom – dizem, e calar, sabedoria. Mas, o mesmo vale para o sentido inverso? Em que momento falar é sábio e silenciar, uma virtude?

Refleti sobre essa questão durante um almoço. Confesso que o ambiente zen do restaurante vegetariano e a música suave de fundo ajudaram minha reflexão, se é que não foram responsáveis por ela. O fato é que me veio à mente a declaração de minha fisioterapeuta uma hora antes. Ela contou que durante uma massagem nas costas e coluna cervical de uma paciente, repentinamente encontrou um nódulo de tamanho significativo e com muita pouca chance de ser lipoma.

Claro que ela alertou a moça para a descoberta, mas quando perguntada por esta que tipo de especialista procurar, faltou-lhe coragem de indicar logo um oncologista e acabou aconselhando-a a ir a um clínico geral.
- Não tive coragem de dizer a ela que procurasse o oncologista para não assustá-la, completou.
Concluímos a conversa falando no medo que às vezes se tem de descobrir a verdade. 

Também me veio à mente o programa “Saia Justa”, do GNT, assistido na noite anterior no qual as quatro apresentadoras – Mônica Waldvogel, Betty Lago, Márcia Tiburi e Maitê Proença liam e-mails enviados por telespectadoras. Em um deles uma moça perguntava se devia acabar o relacionamento com o namorado que gostava de praticar suingue (prática sexual que envolve dois ou mais casais).

A melhor resposta não foi dada por elas e saiu de perto de mim: “Se isso não incomoda a moça e se ela gosta, que continue. Mas é difícil pensar que seja assim, senão ela não estaria em dúvida”.

Questionei se essa clareza de resposta foi por esta estar resguardada no anonimato... Bem, o fato é que as apresentadoras do programa engasgaram - Bete se declarou bastante irritada, Maitê falou sem clareza e Mônica foi a que mostrou uma posição mais razoável para aquele momento, embora não tenha dado uma resposta concreta à telespectadora.

Sobre isso, de novo voltei a questionar em como é complicado ser sincero e falar o que realmente se pensa – já que a sinceridade muitas vezes é tomada por rispidez ou falta de educação. Talvez a resposta que uma delas tivesse vontade de dar tenha ficado entalada na garganta, engessada pelo hábito de que já nos acostumamos (ou fomos educados para assim o agirmos) a tomar um atalho cômodo para que não causemos mágoas.

No fundo, acredito que saber quando falar e quando calar é uma questão que envolve o nosso aprendizado na vida, o nosso crescimento e a nossa evolução. Que chega com o tempo e com a maturidade.

Rosane Leiria Ávila
Publicado no Jornal Agora (www.jornalagora.com.br) Mulher Interativa (http://mulher-jornalagora.blogspot.com)

sábado, 20 de março de 2010

Despojamento




Tenho alergia a carregar bolsas, sacolas, pacotes ou qualquer coisa que se pareça com elas. Muitas vezes, deixo de comprar só para não ter que carregar. Mas, em certas ocasiões essa mania me atrapalha bastante, principalmente quando, por exemplo, desisto de levar comigo o livro do momento. E, depois, amargurar várias horas em recepções folheando velhas revistas ou assistindo, a contragosto, programas banais de tevê.
Essa faceta já fez arrepender-me mortalmente por não ter comprado uma calça linda, botas maravilhosas, a blusa ou o vestido remarcados com preços imperdíveis. Argh! Nessas horas chego a me odiar por gostar de andar leve, de ter as mãos livres, de não ter que me preocupar em chamar a atenção para ser roubada ou assaltada... De não correr o risco de esquecer alguma coisa em algum lugar. De não sobrecarregar minha coluna com pesos de coisas supérfluas. Às vezes, nem tão supérfluas assim...
E prometo a mim mesma, parada diante de uma loja cuja vitrine exibe modelos incríveis, que vou voltar no dia seguinte preparada psicologicamente para comprar e carregar. Mas não volto. Nunca volto. Porque na maioria das vezes esqueço o nome do estabelecimento, da rua e me dá uma amnésia proposital do bairro por onde andei.
Mas, na verdade, a maior motivação que encontro nessa atitude é o prazer que sinto em caminhar longas distâncias, e fazer isso de forma despreocupada e saudável.  Como naquela famosa música de Caetano “Sem lenço e sem documento”.  O carro fica esquecido na garagem semanas a fio e, na hora da troca, a quilometragem rodada surpreende a revenda.
O mais curioso é que me sinto tão bem, ou melhor, do que se tivesse comprado (claro que o saldo bancário agradece). Mas reflito se isso não ocorre também porque me habituei a não decidir nada sem pensar muito. Sem analisar prós e contras. Sem questionar a necessidade real de adquirir determinado objeto ou vestuário ou sei lá mais o quê. E no quanto aquilo poderia me fazer sentir melhor do que me sinto no momento, ou me proporcionar prazer. No fundo, também porque sei que prazer e alegria independem de bens de consumo. Eles só mascaram a tal felicidade.
Mas... Tudo isso se inverte quando respiro o divino odor que exala dos livros. Nas megastores não consigo controlar o impulso consumista. E nessas ocasiões, nem mesmo o ralo saldo de final de mês ou tampouco a ojeriza de carregar pacotes me detêm. Viro uma consumidora voraz. Acabo voltando para casa exausta, cheia de pacotes e com a alegria de uma criança em noite de natal. Mas como sou chata, isso acaba me causando  angústia: enquanto minha pequena biblioteca cresce, esvaziam-se os pretendentes às obras...
E eu não escrevi antes que sofro tudo por antecipação?
Rosane Leiria Ávila

Crônica publicada no Mulher Interativa (http://mulher-jornalagora.blogspot.com/)

sexta-feira, 19 de março de 2010

Temperança

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O artigo não era novo, mas na sala de espera de um consultório médico chamou minha atenção pelo fato de ser atemporal. Em um número da revista Bons Fluídos de 2006, a jornalista e pesquisadora Sônia Hirsch escreveu sobre temperança.

Temperança, segundo o Aurélio, é qualidade ou virtude de quem é moderado, ou de quem modera apetites e paixões; sobriedade. Também significa moderação, comedimento, temperamento, economia e parcimônia.

Pensei que temperança é o que deveria pautar a vida de todos nós. Ultimamente tenho pensado sobre o futuro da Humanidade e do nosso próprio povo. E tenho sido cética em minhas conjeturas de que não há saída, de que o mundo não vai ficar melhor e de que os homens não vão rever conceitos nem mudar costumes e ambições. Entretanto, como escrevi acima, se em cada um de nós estivesse plantada uma sementinha de temperança, viveríamos tempos melhores. Deixaríamos perspectivas de vida mais dignas, mais saudáveis e mais humanas aos adolescentes e crianças de hoje.

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Temperança, quando a questão é o alimento como uma experiência diária de prazer e satisfação que precisa de temperos, não o dos vidrinhos, mas o da consciência, afirmou Sônia, é por exemplo, comer só na quantidade adequada à necessidade do momento. "Comer demais é uma das maiores burrices da vida e, além de ser um desperdício, sobrecarrega a digestão, entorpece a mente, engorda, prende o intestino e vira doença".

E penso que quando a questão é moral,temperança é não se desejar mais do que se pode usufruir; é não ter demais quando tantos têm tão pouco. Temperança é saber que podemos ser felizes com o razoável. É se contentar com um carro popular ao invés de sonhar com um modelo importado, porque ambos percorrerão as mesmas distâncias. Temperança é um estado de consciência sempre em alerta aos excessos e às vicissitudes descabidas.

A autora também citava o livro Pequenos Tratados das Grandes Virtudes, do filósofo contemporâneo André Comte-Sponville (Editora Martins Fontes): "A temperança, que é a moderação nos desejos sensuais, é também a garantia de um desfrutar mais puro ou mais pleno. É um gosto esclarecido, dominado, cultivado. Em vez de escravos, passamos a ser senhores de nossos prazeres".

O grande pensador do século XVII, Baruch Spinoza (1632-1677), diz que a temperança é um meio para a independência, assim como essa é um meio para a felicidade: "Ser temperante é poder contentar-se com pouco. Mas não é o pouco que importa: é o poder, e é o contentamento".

Rosane Leiria Ávila