domingo, 14 de fevereiro de 2010

Gordura é um estado de espírito




Em duas refeições frugais, o pacote de biscoitos – que era enorme ficou reduzido a nada. Desolada, Taís não parava de fitar o pacote - agora quase vazio -, e que tendia mais para um lado que para o outro.

Com tristeza lembrou que todo o esforço feito na academia pela manhã havia sido em vão. Na vida, odiava ter que ir malhar mais do que tudo: 1h de esteira, 30min de bicicleta, sei lá quanto tempo de musculação. E, para finalizar ainda havia a tortura dos tais abdominais, que costumava chamar de “abominais”.

E tudo pra quê? Para competir com as amigas de ocasião que, assim como ela, também estavam ficando velhas e largas... Riu-se da alusão.

Uma coisa que tinha era senso de humor. Humor sarcástico ou negro, que às vezes a fazia rir ironicamente das próprias desgraças. Como nas vezes em que escutava um assovio de admiração na rua e se pavoneava toda, mesmo sabendo que era para a sílfide à sua frente.

Olhava-se no espelho todas as manhãs e maldizia as novas rugas, mas se rejubilava porque elas também apareciam corajosas nos rostos redondos das famosas. No espelho, olhava para os olhos e já não via neles o brilho da juventude. Pelo contrário, começavam a ficar embaçados - talvez por uma iniciante catarata -, ou pela desesperança de um dia vestir manequim 40.

Mas mesmo sabendo ser o tempo um demolidor implacável a La Schwarzenegger, esforçava-e para retardar o inevitável e em sua agenda não faltavam visitas a clínicas de estética para aplicações de botox, maquiagem permanente, massagem modeladora, drenagem linfática...

Ufa! Tanto esforço para que sua baixa auto-estima não fosse amarrotada pelo estilo ‘de bem com a vida’ da vizinha gostosona. A tal monopolizava os olhares no elevador e a atenção do síndico, que se desmanchava aos seus pedidos e caprichos. Ela até exibia um bumbum empinado. Seria silicone? “Hoje em dia não se tem mais certeza de nada...” Os peitos eram, disso ela tinha certeza pois o tamanho causariam inveja a americana Pamela Anderson! E a barriga? Esticadinha! “Que nojenta”, pensou!

E agora, fitando o saco dos biscoitos, via tudo ir por água abaixo! Quantas calorias, mesmo?! Eram dos mais doces que havia na prateleira do supermercado. Daqueles folheados (com muita gordura hidrogenada) e ainda por cima açucarados! Melhor nem ler as informações calóricas no pacote. Mas se fosse honesta consigo, teria de admitir que os três croissants no cafezinho da tarde anterior, ou a picanha com capa de gordura no almoço também a fariam afundar a balança.

Melhor então é parar de sofrer, ligar pra amiga e combinar um choppinho (ou mais) no final do dia! Não sem antes prometer que no dia seguinte começaria a dieta, baniria todos os biscoitos e guloseimas da despensa e nem chegaria perto de uma cervejinha.

No fundo, era o que se prometia todos os dias... Afinal, ser gorda não é um tipo físico; é um estado de espírito... Quem foi que lhe disse isso mesmo?!


Rosane Leiria Ávila

Publicado no Mulher Interativa (Jornal Agora)

http://www.jornalagora.com.br/site/index.php?caderno=48&noticia=77096

sábado, 13 de fevereiro de 2010

O casamento no divã

marriage on the couch

“Você quer amar para sempre? Ame todo dia”. O conselho é da psicóloga Lídia Rosenberg Aratangy, autora de “O anel que tu me deste – o casamento no divã” (Primavera Editorial, Ed. 2009, 202 pp). Terapeuta de casais é autora de uma dezena de livros. Para ela, relacionamentos são difíceis – não importa se são vividos através de namoros ou casamentos. O texto abaixo é extraído e compilado de sua obra.

Com o tempo, com a convivência, sem que o outro tenha se modificado, sem que tenha sequer se movido do lugar, tudo aquilo que antes encantava, passa a irritar.

O que mudou? O olhar.

O objeto continua o mesmo, a diferença está na maneira como as palavras e atitudes são vistas.

Os relacionamentos amorosos não fogem de ciladas... Quase todos caímos e não há diploma de pós-graduação nem de experiência de vida que nos permita andar com segurança sobre essas areias movediças, disfarçadas dos mesmos alçapões que representa a cegueira da paixão e a dificuldade de lidar com o fato de que o casal é composto para duas pessoas diferentes.

Um dos sinais mais claros dos inimigos da relação amorosa é acreditar que se conhece o outro - processo que interrompe a comunicação e condena o casal a viver no império do silêncio...

Outro é a perda da comunicação entre os parceiros, que desistem de se expor depois de ser inúmeras vezes mal interpretado. À essa altura a relação perde o brilho pois os dois se descuidam de si e do outro.

Segue-se, então, outra faceta nefasta: a sensação de incompetência torna-se um divertimento permanente. Nessa altura, o olhar de desdenho que cada um repousa sobre o parceiro reforça a incompetência, nega-lhe qualquer valor, congela a distância e decreta a morte da relação.

Reconhecer os fantasmas que contaminam (e às vezes enriquecem) o relacionamento fortalece os vínculos amorosos, com a intenção de permanência (e talvez isso seja o mais próximo que podemos chegar de uma definição de casamento hoje) podem assumir inúmeras formas.

O não vivido tem sempre um irresistível apelo, pois é possível pintá-lo com as cores que a fantasia criar.

Nós, os humanos, não somos homogêneos. Dentro de nós, o que há de mais digno no patrimônio genético e cultural convive com as tendências mais torpes. Somos habitados por diferentes personagens e sentimentos: somos fortes e frágeis, generosos e mesquinhos, princesas e bruxas, príncipes e dragões. As mais diversas figuras coexistem em nosso mundo interno, e se expressam como diferentes facetas de nossa personalidade.

Porque somos múltiplos, o casamento (definido como uma relação amorosa com projeto de permanência) é um vínculo especialmente favorável ao nosso crescimento e equilíbrio emocional, pois permite o exercício de inúmeros papéis, assim como abre espaço para o desenvolvimento de diferentes personagens internos.

O amor dá trabalho. Não é coisa para gente covarde e preguiçosa. Quem é preguiçoso, desiste fácil e mais facilmente optará pela morte da relação. A verdade é que o amor teria mais chance se, diante de um desencontro, os parceiros procurassem entender juntos a situação, com curiosidade e interesse, em vez de percorrer caminhos antigos, invocando conhecidos fantasmas de desentendimentos passados.

Por: Rosane Leiria Ávila

Publicado no Mulher Interativa (jornal Agora) 16-01-2010

http://www.jornalagora.com.br/site/index.php?caderno=48&noticia=76425

Cabeças de vento

“Cabeça não é só para usar chapéu”, apregoa o velho dito popular, embora seu uso esteja hoje em desuso. Lamentavelmente, é claro. E por duas razões: elegância e proteção.

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Mas a introdução é apenas para falar sobre distração que, de acordo como velho e sabido Aurélio, traduz-se em desatenção, alheamento e abstração.

Se o dicionário é claro e objetivo, a vida real se difere disso e as razões parecem ser muitas e de causas variadas. Entretanto, uma dúvida: elas acometem mais as mulheres ou os homens? “Os maridos”, lógico, disse minha fisioterapeuta, convicta de sua afirmação.

O marido dela - soube logo depois -, é campeão em perder e comprar celulares, por exemplo. Há duas semanas havia perdido o modelo ‘bastantão’ que tinha comprado. Mas nem bem tinha chegado da loja e soube que o anterior tinha sido encontrado e quem estava com ele, pasmem, queria devolvê-lo. “Já tinha comprado outro, bem simples e básico, porque está convencido que celulares são objetos descartáveis e temporários. Pelo menos pra ele. E agora está com dois, só não sei por quanto tempo”, concluiu ela.

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O pior é que não são apenas celulares que ele perde. Segundo ela, há seis meses o marido perdeu o documento de identidade. Depois de procurá-lo exaustivamente, registrar a perda e passar pelos trâmites legais para adquirir outro, pouco tempo depois encontrou o antigo no bolso de um paletó. A fisioterapeuta contou que isso a deixa enlouquecida e que não é nada fácil conviver com alguém que perde e se esquece de tudo o tempo inteiro.

A sessão acabou e resolvi estender o assunto à sala de espera da clínica, à fila do caixa eletrônico na agência bancária e até mesmo ao supermercado. Não me surpreendi com as revelações: as mulheres são mais atentas e os homens mais lapsos. “São uns cabeça de vento”, disse uma senhora. Viúva, revelou que conviveu anos a fio com os esquecimentos do marido. Ele esquecia as chaves do carro, da casa, de colocar gasolina no carro, do filho na porta da escola...

Por que eles são mais esquecidos? Mais desatentos? Segundo o estudo de uma antropóloga americana, as mulheres estão mais bem preparadas para lidar com várias tarefas ao mesmo tempo, enquanto que os homens só podem executar uma por vez.

Mas o que os distraem tanto? O timão? Interesses extra-relacionamentos? Difícil confirmar isso, até porque chegando a essa pergunta encontrei muitas reticências nas respostas. Afinal, numa coisa as mulheres parecem concordar: é melhor não aventar sobre possíveis causas desses lapsos de memória, pois as descobertas podem se tornar uma faca de dois gumes...

Rosane Leiria Ávila

Publicado no Mulher Interativa (Jornal Agora), 09-01-2010

http://www.jornalagora.com.br/site/index.php?caderno=48&noticia=76108

Caixinha de surpresa

Viver um dia após o outro, embora uns insistam na chata existência do cotidiano e da mesmice é, indiscutivelmente uma caixinha de surpresas. Daquelas que a gente abre encantada pela delicadeza da peça e movida pelo impulso e, se espanta ao ver saltar um palhacinho com cara de bobo que parece rir da gente ou do nosso susto... Na verdade, quem fica com cara de bobo somos nós.

caixinha de surpresas - ilustracao cronica rosane

Nenhum de nós pode antever o que lhe reserva o dia de amanhã; amanhã no exato sentido da palavra e não relacionado a um futuro distante para o qual são feitos sonhos e planos... Tantos avanços nos campos da ciência e da tecnologia e, no entanto, o homem ainda não pode prever com exatidão e riqueza de detalhes os resultados de catástrofes, como a do terremoto que atingiu o Haiti ou a tragédia do deslizamento de terra em Angra.

As 24 horas que sucederão o dia de hoje são um verdadeiro mistério. Quem pode saber o que vivenciará nas próximas horas? Ou nos minutos que o relógio vai demarcar? Pensar que num espaço tão pequeno de tempo tudo pode mudar repentinamente, deveria nos fazer refletir sobre nossos pensamentos, ações e direção que estamos dando à nossa vida... Para alguns – e nós podemos ser um deles - o "mundo" pode virar de cabeça para baixo como um passe de mágica ruim. Para outros, tudo na ordem inversa!

Um ciclo de duas dúzias de horas na vida de uma pessoa pode parecer pouco para tantas mudanças! Mas nele há quem ganha ou perde uma fortuna - material, moral ou afetiva. Num íntimo espaço de tempo se pode perder alguém que se despede da vida ou se abrir os braços para acalantar outra que chega...

Na verdade, a vida em sua maior parte se assemelha a um redemoinho de acontecimentos onde a imagem bucólica de uma casinha num campo verde com flores multicoloridas à volta e montanhas no fundo, é só um quadro cafona e sem moldura que guardamos em um cantinho de nossa mente.

Rosane L. Ávila

Publicado no Mulher Interativa (Jornal Agora), 23-01-2010

http://www.jornalagora.com.br/site/index.php?caderno=48&noticia=76763

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

E se...

e se - ilustração cronica rosane

E se no ano que começa hoje nos reiventássemos? E se abríssemos nossos corações, amando mais e de forma mais plena? E se não fôssemos tão sisudos, tão pessimistas? Se sorríssemos mais e largamente? E se nos embriagássemos somente de alegria? Se abandonássemos nossos medos e receios? E se olhássemos mais nos olhos dos outros e descobríssemos ali, maravilhados, um mundo interno repleto de amabilidade, compaixão e respeito?

E se acreditássemos mais em Deus, em nós, na vida, nos outros e nos sonhos? E se fôssemos mais sinceros conosco? E se escutássemos mais nossa intuição? E se a seguíssemos mais? E se discutíssemos mais com a razão fazendo-a descer de seu pedestal? E se colocássemos o ego abaixo? E se desmontássemos o arsenal bélico interno que nos faz estar sempre na defensiva?

E se trabalhássemos menos e nos divertíssemos mais? Se cuidássemos melhor dessa máquina maravilhosa que é o nosso corpo (capaz de nos levar a qualquer lugar do planeta e até ao espaço)? Se cuidássemos melhor dele e do que imputamos a ele (estresse, má alimentação, sedentarismo, álcool, fumo, drogas)?

E se fôssemos mais leves, mais voais? Se nos movêssemos com a leveza e a beleza das garças e a liberdade dos pássaros?

É quase impossível que, confrontados e impelidos (afinal, não tem outro jeito) a encararmos um novo ano, não imaginarmos infantilmente nas inúmeras probabilidades que temos e podemos construir para recarregarmos nossas baterias internas, oferecendo a esse novo e desconhecido ano somente o que há de melhor em nós!

O encerramento de um ano e a expectativa de um novinho chega tal qual a agenda nova, cujas folhas impecavelmente limpas e agradavelmente cheirosas estão à espera de boas anotações, somente boas...

Rosane Leiria Ávila

Publicada no Jornal Agora em 1º/01/2010

http://www.jornalagora.com.br/site/index.php?caderno=48&noticia=75796

domingo, 25 de outubro de 2009

Contradições

Nós nos contradizemos? Sim, muitas vezes. E contradizer por acaso não é producente? Ou é contra-senso? Num lapso de dúvida, recorro ao Aurélio que me socorre, reforça e dá outras versões à palavra contradizer, as quais são: impugnar, contrariar, desmentir, alegar o contrário ou desdizer... E ainda, categoria fundamental da lógica dialética, ou seja, arte do diálogo ou da discussão'... Gostei mais deste último posicionamento em relação à palavra. Na verdade, ele se encaixa numa justaposição ao fato.

Afinal, contradizermo-nos pode significar mesmo antes de se assemelhar a um posicionamento imaturo ou inconseqüente; exatamente o oposto. Uma percepção inteligente em relação à vida, às nuances e aos acontecimentos... Pode significar estar atento às lições que a vida dá a todos e a qualquer um de nós. Pode, também, nos manter em estado de alerta às mudanças - nossas, dos outros e do mundo como um todo.

E, afinal, toda mudança encaminha o indivíduo para o crescimento. Sim ou não? Com certeza, sim. Mesmo aqueles que insistem numa cegueira voluntária porque não querem enxergar; pois assim sendo, temem ter que mudar.

Há muito tempo, confrontado com uma de minhas contradições, alguém me cobrou um posicionamento anterior a determinado assunto, referindo-se a isso, veladamente, como se uma fosse uma falha de caráter... O detalhe era que essa pessoa recuperou uma referência feita há séculos e já totalmente ultrapassada por diversos fatores: por eu ter amadurecido, por ter mudado, e por tudo à minha volta agora ser diferente.

Fiquei olhando para essa pessoa e pensando no quanto ela estava engessada por suas posições rígidas de olhar a si e aos outros. Arraigada, não se dispôs a abrir-se feito leque ou esponja aos ensinamentos através das experiências que todos os dias todos nós recebemos.

Vejo que sua pouca predisposição de mudar o faz agarrar-se como náufrago desesperado a velhos conceitos e preconceitos, em um flagrante desperdício de tempo. Ah, o tempo! Sempre ele nos dando ou nos fazendo dar voltas!

Rosane Leiria Ávila (crônica publicada no Jornal Agora, caderno Mulher Interativa www.jornalagora.com.br)

contradiçoes - ilustracao

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O tempo dentro de um sonho


A velocidade do tempo me faz compará-lo a um ato de violência. Daquela que acontece de forma inesperada e surpreendentemente. Há semanas, meu referencial comparativo de espanto se dá às quintas, quando começa a “Grande Família” e meu primeiro pensamento é: “estão doidos, o programa foi ao ar há dois dias”.
Mas não. Ele foi ao ar exatamente há sete dias; e quando me dou conta já se passaram mais sete. Juro, que não quero mais brincar com o tempo disparado. Não com esse tempo que voa, que atropela, que me dá a impressão de viver num sonho, de estar em um cometa, sei lá...
Quero um tempo parado. Um tempo com tempo para tudo. Um tempo em que os ponteiros do relógio se arrastem; mas tenho que me lembrar de colocar fora todos os digitais e ficar com aquele velho relógio na sala da avó, com tique-taque e passarinho de madeira saindo para cantar de hora em hora. A mim parecia, enquanto criança, que decorria uma eternidade entre uma e outra saída dele.
Esse tempo cibernético me rouba o tempo para jogar conversa fora com os amigos; para me deitar preguiçosamente à sombra em um dia quente fora da estação; para dar mais atenção aos meus familiares e a mim mesma; para não ter que agir sem tempo de refletir...
Quero um tempo envolto em mansidão. E quero, além de ter mais tempo para tudo, tempo para me lembrar do tempo vivido sem que pareça que nada eu tenha vivenciado. Lembro agora do filme “Um sonho dentro de um sonho” (escrito e interpretado por Anthony Hopkins , 2007), que conta a história de um ator e roteirista que teve sua vida sempre no limiar de duas existências: a da realidade e a de seu mundo interior. Enquanto escreve, vê seus personagens aparecerem repentinamente em sua vida. A partir daí, perde a capacidade de discernir o real do irreal e seu cérebro o leva à beira de um colapso.
Essa velocidade da qual o tempo se utiliza e a qual eu tenho que me moldar, me dá a impressão exata de viver picos de consciência inseridas em cenas diáfanas cotidianas: o dia mal amanheceu e já está na hora do almoço; almoço e parece que recém comecei uma tarefa e já está na hora do café da tarde; mal este acaba e já é noite. E tão logo ela se instala e já chega o primeiro bocejo alertando que está na hora de ir para a cama. Olho para o relógio e já são 1h da madrugada. Tento me lembrar do dia, mas parece que foi um sonho...

(Por: Rosane Leiria Ávila, publicada no caderno Mulher (http://mulher-jornalagora.blogspot.com), do Jornal Agora (www.jornalagora.com.br)

Em cartas inéditas, Dostoiévski dá lições de humanidade

O tradutor Robertson Frizero no lançamento do livro (crédito: Rosane L. Ávila)

Imagem da capa

Poucos escritores conseguiram trabalhar suas tragédias pessoais com tanta humanidade quanto Dostoiévski. Suas cartas ganharam tradução inédita em português em lançamento da Editora 8INVERSO.

O lançamento da obra aconteceu no auditório da Livraria Cultura do Shopping Bourbon Country, em Porto Alegre, no dia 15 de agosto último. O livro Dostoiévski – Correspondências – (1838-1880), do tradutor Robertson Frizero, atraiu a atenção do público que lotou o local para a breve apresentação e leitura de fragmentos da obra.

O evento contou ainda com a participação especial do ator Marcelo Almeida na leitura dramática de alguns trechos da obra, publicada pela Editora 8INVERSO. Esta é a primeira vez que uma coletânea de cartas do grande autor russo é publicada em língua portuguesa.

Antes, porém, o editor Cássio Pantaleoni fez uma breve introdução do empreendimento, considerado ousado tanto pela tradução quanto pelo próprio projeto editorial.

Fundada em 2008 por Pantaleoni, também escritor e filósofo, a Editora 8INVERSO tem como foco a qualidade em primeiro lugar, e ainda este ano deverá lançar mais três títulos de peso. “Nosso intuito é recuperar algo que foi perdido no mercado literário”, justificou o editor.

Tanto o editor quanto o tradutor ressaltaram a importância da obra e a riqueza de suas referências. "É um livro projetado para proporcionar um conhecimento mais aprofundado sobre o interior deste autor russo, bem como fornecer dados sobre época, personalidades e situações que permeiam a biografia de Dostoiévski".

Para o tradutor Frizero, o conteúdo das cartas revela bem mais sobre a personalidade de Dostoiévski, daquela que o mundo literário já conhecia. "Nas cartas são mostradas não só sua intimidade, através de suas fraquezas, tristezas ou culpas, mas também fatos marcantes que influenciaram fortemente sua formação como escritor. Muitos, refletidos em personagens e situações descritas em sua obra”.

Segundo ainda Frizero, o leitor terá uma oportunidade de desfrutar de uma verdadeira aula sobre o que é ser um escritor. Através das cartas do escritor, é possível se conhecer o que se passava com o autor no momento em que ele estava fazendo literatura. Elas falam sobre o dinheiro escasso para escrever; na pobreza vivida; na melancolia que o assolava. Também sobre a dificuldade de expor seus sentimentos, embora os sentisse com intensidade.

Selecionar em torno de 250 cartas e traduzi-as foi um processo bastante difícil, contou Robertson Frizero. “Ainda mais tendo o cuidado de respeitar os tons com que foram escritas”, disse ele. O livro mostra a formalidade ou informalidade de Dostoiévski, conforme as cartas se apresentavam.

Para tornar a leitura mais compreensível para o leitor, o livro foi dividido em quatro sessões, que levou em conta alguns critérios como: fatos da vida pessoal dele, o processo como escrevia e trabalhava os textos; os fatos que ocorriam na Rússia e as análises feitas pelos escritores sobre o cotidiano do povo russo.

Através das cartas o leitor se emocionará ao ver o amor de Dostoiévski pelo seu irmão mais velho e seu melhor amigo (que também tinha pretensões literárias); sua paixão contida por uma senhora casada e que viria a se tornar sua esposa após a viuvez dela. Ou se revoltará com os relatos de sua prisão e a tortura mental de sua sentença de morte. Junto com outros presos, ele foi levado aos rituais finais de execução, cancelada no último segundo. O ato foi uma encenação para possibilitar a expressão de um “generoso perdão” do Czar. Esse fato, contou o tradutor, causou um grande impacto em Dostoiévski.

Vieram depois o exílio e a tragédia pessoal vivenciada pela perda da filha Sonia. Ela morreu com apenas três meses de idade, em Genebra, no dia 18 de maio de 1868. Para ele, um fato irreparável do qual custou a se recuperar. Ou não se recuperou, já que descrevia seu sofrimento com intensidade, assim como o imenso amor dela por ele, apesar da tão tenra idade.

“Enfim, poucos escritores conseguiram trabalhar suas tragédias pessoais com tanta humanidade. Dostoiévski fala de tudo em seus personagens e em sua literatura. O livro é um convite para que se conheça sua obra”, encerrou Frizero. A obra oferece também um interessante panorama sobre o meio literário do século XIX.

Em um banal desabafo ao irmão, escrito em 17/09/1846, já que ele próprio solicitava uma correspondência mais ativa entre os dois, Dostoiévski, diz: “Cartas são um absurdo; apenas farmacêuticos escrevem cartas”. E graças a isso ser desabafo destituído de qualquer intenção contrária, é que o leitor pode desfrutar da grandeza literária desse grande escritor russo, trazida à luz no mundo da literatura por essa profícua correspondência.

O lançamento neste mês de agosto, oito no calendário, foi totalmente intencional, segundo Cássio Pantaleoni. “Tudo precisou ser feito muito rápido para aproveitar a data, já que tem tudo a ver com o nome da 8INVERSO”, revelou o editor. (Por: Rosane Leiria Ávila)


SERVIÇO:

Dostoiévski – Correspondências - (1838-1880)

Tradução: Robertson Frizero

248 páginas - R$ 54,00

Editora 8INVERSO

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Dar é bom, mas às vezes nos arrependemos


Dar é bom. Mas às vezes você acha que fez besteira e bate uma sensação de arrependimento... Acorda numa fria e manhã de domingo no auge do inverno, se perguntando por que se desfez daquele magnífico casaco de pura lã, produzido por uma marca tradicional já extinta e usado tão poucas vezes! Mesmo que o modelo fosse clássico, pois, para roupas caras o investimento só vale a pena para peças que em tempo nenhum sairão da moda.Pensar também que você jamais voltará a adquirir um modelo semelhante, até porque o fabricante já não existe mais, a poderá ainda deixá-la um pouco mais para baixo.Mas aí, como tortura pouca é bobagem, você aproveita para também pensar naquele blazer xadrez de linho puríssimo, de uma das mais conceituadas griffes mineiras e que era o objeto de desejo de suas amigas... Neste caso específico, você recorda que o corte dele tinha saído de moda. Mas, ora bolas! Moda vem e vai e vem de novo! Por que não esperar o retorno?Porque certas peças do nosso vestuário, apesar de ainda perfeitas e atenderem ao fim ao qual foram feitas, nos incomodam tanto quanto palavras mal ditas (ditas num impulso sem pensar)... Ou seriam malditas (no sentido de malignas)? Algumas roupas em nosso armário acabam, por nossa imaginação, carregadas de cargas emocionais. A manhã fria, fruto de sucessivos dias chuvosos, me fez lembrar ainda o quanto aquele casaco me aquecia e me dava a agradável sensação de calor de colo de mãe. Mas, que foi, a certa altura, substituída pelo desconforto de lembranças que deviam ser deixadas no passado, como páginas de um livro que jamais voltaria a folhear. O que me serviu de consolo no ataque saudosista daquela manhã, foi imaginar o quanto o casaco estaria aquecendo outra pessoa. Dar para esquecer, imagino ser uma das causas de se vincular fatos vivenciados aos objetos. Se eles foram agradáveis, é provável que se leve mais tempo para praticar o desapego... Se trazem à tona lembranças não muito boas (mesmo não traumáticas), ou suaves como a de uma juventude diáfana, então o que se deseja mesmo é tirá-los dos armários e do alcance dos olhos, a exemplo das velhas fotos em papel que particionam nossa história. Escondidas no fundo de um armário em álbuns que não foram manuseados nos últimos cinco ou dez anos, provavelmente também não o serão nos próximos 20. E de lá só sairão à luz do dia manuseados por nossa terceira geração, provavelmente, quando já não mais estivermos por aqui. E nem mesmo nossos descendentes vão querer guardá-las. Afinal, agora a vida é virtual e o mundo todo a guarda no Orkut.


Rosane Leiria Ávila