Ver que a vida não cessa de nos dar oportunidades para mudarmos nossas atitudes...
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Caminhos que se cruzam
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
O adeus que não é adeus
Recebi a notícia e deixei-a de lado pra pensar sobre o fato, consumado e irreversível, depois. Pra sentir depois, pra lembrar depois...
Acabei o trabalho, preparei meu almoço, levei o cão para o passeio, dei comida para o gato e até pudim eu fiz.
Depois, quando estava exausta – desconfio que esse era o propósito – parei para pensar. Mas tudo o que sentia era um profundo estado de torpor.
Sentada no sofá quase sob o sol, do meu posto eu tinha uma vista panorâmica do céu. Brinquei com as nuvens e suas formas e viajei no infinito do azul celeste.
Só então o rosto do Zé (José Guimarães) apareceu nítido em minha memória e eu saí do estado letárgico. Enxerguei seus olhos mais azuis do que eram e seu sorriso mais largo. Foi então que a emoção começou a tomar conta de mim devagarinho e deu-se início a uma série de cenas como numa peça teatral ou num filme, onde ele era o ator principal e eu a coadjuvante.
Na verdade, éramos dois protagonistas porque fragmentos de conversas, fofocas sussurradas, gargalhadas escancaradas... Tudo isso estava ali naquele momento em que o busquei na memória o deixei sentar ao meu lado no sofá.
O Zé era uma festa. Encontrar com ele era sempre um acontecimento alegre e deliciosamente divertido. Era também tomar uma ducha de informação, cultura e modéstia. Sim. Ele era uma pessoa simples e despretensiosa. Daquela simplicidade que veste a cor do ouro sem o saber, que reluz sem o pretender.
Zé abandonou o colunismo social quando a futilidade se tornou insuportável para ele. Deixou a lacuna ser preenchida por outros ávidos por holofotes. Ganhou com isso. E ganharam todos os leitores de O Peixeiro que passaram a ter semanalmente críticas sobre arte.
A cidade também ganhou, pois, sob o crivo de uma crítica por quem tinha conhecimento e cultura para isso, arrisco dizer que artistas começaram a se esmerar para merecer seu olhar e seu destaque sobre seus trabalhos e produções.
Costumava também encontrar o Zé em alguns eventos – embora ele fosse ‘arisco’ a freqüentar a noite. Nesses, ele sempre me interpelava perguntando seu eu comeria carne de porco. Implicância amável e carinhosa, pois sabia ser eu uma vegetariana convicta. Ríamos com facilidade de e nos divertíamos com pouco.
Em alguns desses eventos também encontrávamos o Gil (Barlém Martins) falecido em 2009, também ex-colega de redação. Aí, a festa realmente virava uma festa!
Acredito que agora estão os dois reunidos dando continuidade às galhardias.
ROSANE LEIRIA ÁVILA
Publicado em O PEIXEIRO no dia 30 de agosto de 2011
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sábado, 27 de agosto de 2011
Nossos fantasmas
Ao longo da vida nos deparamos com muitos ‘fantasmas’. Alguns colecionamos por anos a fio até que uma terapia apague suas impressões. Outros, vão surgindo em nosso dia a dia e preenchem as páginas de nossa agenda com aquilo que anotamos e não damos conta de fazer. Um comum a muita gente é o fantasma do salário que não se estica feito elástico até o final do mês. Outro é aquele que ganha corpo pelo medo de ir a um médico e ele pedir uma porção de exames, e que depois de ser abatido cederá seu lugar a outro emergido pelo receio de um resultado inesperado. Não devemos nos esquecer também de listar aquele velho fantasminha infantil que nos assombrava com o medo do dentista e sua maquininha de dor estridente...
Há ainda os fantasmas da corrupção, da roubalheira do dinheiro público e dos maus políticos. Da decepção do voto dado pra quem não está fazendo por merecê-lo. Do medo da violência na rua, no banco, no trânsito... O fantasma da competitividade que dá ímpetos a um colega de arrancar o fígado do outro no seu ambiente de trabalho.
E, ultimamente, do fantasma do tempo. Não o tempo que nos deixa mais velhos a cada dia e do qual não podemos, e não queremos fugir; caso contrário, precisaríamos morrer. Falo desse tempo-clima maluco que faz a temperatura despencar mais de 10 graus em menos de 24h. Que nos palhaços urbanos vestidos para verão e inverno, com filtro solar e guarda-chuva. Outro dia, uma moça de São Paulo comentou que saía de casa às 6h da manhã com roupa de inverno por causa do frio. Mas na mochila carregava vestuário de meia estação, de verão e até biquíni, porque no final do dia poderia estar muito quente e assim ela poderia dar uma passada no clube antes de retornar à sua casa.
Afora esse fantasma doido e trapaceiro, ela também tinha outros, como o do trânsito emperrado e o de enfrentar um temporal na rua com direito a enxurradas e tragédias.
Ah, são muitos os fantasmas cotidianos, alguns extravagantes, excêntricos, idiotas, absurdos! A parte boa disso é que com o tempo vamos ganhando tarimba para lidar e abater alguns. Os mais resistentes e encouraçados viram verdadeiros monstros com poder de fogo para roubar o brilho, o sorriso, a leveza e a despreocupação dos semblantes mutando-os em caricaturas carrancudas...
Por fim, meus mais recentes fantasmas são crias desse inverno chuvoso e frio. Eles me fazem lembrar uma infância povoada por roupas molhadas estendidas no varal do pátio por vários dias, que brincavam com meu imaginário ao se moverem ao comando do vento. Ou quando bruxuleavam na sombra das luzes à noite.
ROSANE LEIRIA ÁVILA
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Espelho meu
Dizem que diante de um espelho ninguém consegue ficar indiferente. Embora eu creia que ninguém até hoje parou diante de um para fazer aquela famosa pergunta do conto infantil "espelho, espelho meu, existe alguém mais bela(o) do que eu?", acredito que a maioria das pessoas façam um stop breve para dar uma rápida conferida em seu visual e sentir-se, de acordo com o nível de sua auto-estima, se está bem ou mal. Se aprova, ou não, a imagem revelada à revelia.
O escritor Umberto Eco, no ensaio "Sobre Espelhos", Ed. Nova Fronteira, 1989, afirma que confiamos nos espelhos como confiamos nos óculos ou binóculos: "os espelhos são próteses". Na verdade, acho que todos somos muito suscetíveis à imagem no espelho. E que a história da humanidade prova que homens e mulheres eram, e continuam sendo, invariavelmente vaidosos.
Mas, apesar de refletirem nossa imagem, os espelhos nem sempre são fiéis: às vezes se mostram cúmplices, em outras, algozes. Há os que deformam e distorcem propositalmente e os que fazem isso por erro de fabricação. Será?! Bem, de qualquer forma, esses últimos certamente são aqueles que nos deixam mais feias! Certamente, alguma vez você já se olhou e viu que aquela imagem refletida num determinado espelho a deixou mais bonita ou mais feia, sem necessariamente você estar de uma ou de outra forma. Dei-me conta disso há algum tempo e, coincidentemente, em lugares estratégicos. Será intencional? Espelhos em provadores de lojas, em academias, em salões de estética ou beleza, às vezes me parecem bem diferentes daqueles lá de casa. As imagens no lado de lá são suspeitamente mais jovens, mais magras, mais coradas... Até o cabelo tem mais brilho...
A Wikipédia, socorro pra todas as horas, dirime minhas dúvidas explicando que “existem diversos tipos de espelhos. Os mais utilizados são os espelhos planos e os espelhos curvos, e os de alta intensidade. Um espelho plano é uma superfície plana que produz imagens virtuais e simétricas dos objetos. Assim, a imagem dada por um espelho plano é do mesmo tamanho que o objeto, mas virtual, uma vez que não se pode projetar num alvo; é direita e é simétrica, ou seja, invertida lateralmente (enantiomorfa).
ROSANE LEIRIA ÁVILA
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quarta-feira, 13 de julho de 2011
O mundo das senhas
Troquei de agência, de número de conta, de senha. E a esqueci quando mais precisava lembrar... Eu já estava na fila do ônibus quando lembrei que precisaria ir a um caixa eletrônico. Entre chegar a casa, pegar o carro, andar alguns quilômetros para ir a um shopping, optei por ir à agência bancária a poucos metros do terminal.
Assim, ganharia tempo. Lerdo engano! A pressa e a ansiedade me fizeram reféns. Ao ter que digitar a senha alfabética no caixa eletrônico, tive um surto de amnésia e duas tentativas me jogaram a escanteio. “Sua senha foi bloqueada”, alertou a frase que apareceu no vídeo do terminal.
Quase em surto, chamei a auxiliar que, ao olhar o número e agência de minha conta, sentenciou: “A senhora precisará se dirigir à sua agência de origem”. Até aí, nada demais. A não ser que esta era no outro extremo da cidade. De uma cidade cujo trânsito tornou-se caótico pós-redução do IPI (durante o período de alguns meses, a cada 30 dias, dois mil novos carros circulavam pelas ruas da Capital).
Tudo isso passou pela minha cabeça em pouquíssimos segundos, creio. Porque fui trazida ao presente pela voz da moça: “Podemos fazer uma tentativa”. Ah, perfeito! Que bom! Ufa!
Ufa, nada! Logo após uma sucessão de digita aqui, abre janela ali, ela afastou-se um pouco do terminal e disse-me: “Agora, a senhora digite sua senha alfabética”. Ora, ora! Como assim, se era exatamente esta que estava fugidia de minha memória?
Voltei à estaca zero praguejando o mundo virtual das senhas. A cada dia, somos requisitados a criar novas senhas: do banco, do internet banking, alfanumérica, senha da tv a cabo; de cadastros on-line; senha da operadora de celular; do plano de saúde; palavra secreta; senha do programa de milhagens, do e-mail profissional, do e-mail pessoal, do MSN, Orkut, Facebook, Twitter...
Simplesmente, não dá para decorar todas e, quando acontece um lapso na memória, ficamos à deriva de acontecimentos torturantes. E a vida que era para ser simplificada pelas senhas, toma o caminho inverso e se complica.
Há algum tempo, por precaução, escrevi as principais dicas das também principais senhas no bloco de notas do celular. Calma, calma, a ‘master’, não. Perdi o celular e tive que trocar todas. O que nem preciso detalhar sobre o transtorno causado.
Por segurança, resolvi nada colocar no novo. E deu no que deu na última quarta, quando precisava de dinheiro para pagar a moça que fazia a faxina no meu apartamento.
À beira de um surto, lembrei-me do caderninho onde anotei todas as senhas e de ligar para casa pedindo a tal senha alfabética. Ela atendeu, localizou o caderno e a senha. Anotei, digitei no terminal e, enfim, deu tudo certo.
“Ainda bem que a senhora não havia digitado a senha errada por três vezes”, alertou-me a ajudante. Retribuí com um sorriso amarelo.
Retirei o dinheiro, corri para o terminal do ônibus e cheguei sã e salva com o dinheiro em punho. Agora, só preciso iniciar a maratona das trocas de senhas de novo.
Por: ROSANE LEIRIA ÁVILA
Publicada no Mulher Interativa / Jornal Agora www.jornalagora.com.br
sábado, 9 de outubro de 2010
Migração
domingo, 8 de agosto de 2010
Intervenções urbanas
Você sabe o que são flash mobs? Até bem pouco, eu também não sabia. Essa nova informação – pelo menos pra mim - estava em minha caixa de correspondência há alguns dias. Flash mobs são propostas para despertar o olhar e a mente automatizados pela rotina estressante das grandes cidades. Algumas manifestações são previamente combinadas pela internet.
Desconhecido não só para mim, mas também para a grande maioria das pessoas, tem conquistado cada vez mais adeptos.
O primeiro desses movimentos é em relação aos livros. Segundo o idealizador do projeto “Livro Livre”, Felipe Meyer, “livros não são objetos de decoração e devem percorrer um caminho”. Por conta disso, o paulistano passou a se deparar com livros propositadamente esquecidos por alguém em bancos de praças ou pontos de ônibus.
O segundo movimento é o Café do Próximo, uma corrente surgida há três anos na qual o cliente deixa pago também um cafezinho para o cliente seguinte, o qual desconhece totalmente.
Motivada, a dona de um café na Vila Madalena, em SP, Beth Guido, resolveu acatar a sugestão do psicólogo Marcos Fleury, que conhecera a prática na Livraria Argumento, no Rio. “Pagar o café para alguém é uma demonstração simbólica de afeto”, define ela. Para o psicólogo, por meio dessa gentileza às escuras os adeptos também se aproximam das outras pessoas, mesmo que não conheçam seus rostos.
O terceiro flash mobs é o batizado de “Iluminação Urbana”. Em trajes sociais, as transeuntes vão se juntado à meditação do grupo Influenza (nome dado numa paródia ao do vírus H1N1), em plena Avenida Paulista. A meditação é feita na hora do rush para chamar a atenção das pessoas, valendo-se do silêncio em meio à balbúrdia de final de expediente. “Ao invés de lutarmos por uma revolução externa, buscamos uma revolução interna: a tranqüilidade em meio ao caos”, justifica o artista Alexandre Paulain, um dos criadores do grupo Influenza.
Rosane Leiria Ávila
Publicada no Jornal Agora wwww.jornalagora.com.br- 25 de julho de 2010
Roupa para a alma
Nesta semana de temperatura extremamente gélida, algo me lembrar de minha infância - ele mesmo, o frio. Resgatado por uma prática assumida em momentos de crise: a de colocar a roupa que vou vestir próxima a uma estufa para aquecê-la. É uma sensação muito agradável... Parece um carinho!
Na verdade, é um carinho. Na minha infância, o de minha mãe que, zelosa ou temerosa que eu ou minhas irmãs ficássemos doentes no inverno, tinha o costume de esquentar as roupas que vestiríamos após o banho, quando pequenas. Ou mesmo não tão pequenas, porque bastava que estivéssemos um pouco resfriadas e o velho ritual já era colocado em voga.
Não sei se ela ainda se lembra disso. Mas eu sim, e reeditei o velho costume neste inverno que, para o meu desconforto, ainda está longe do fim.
- Tem feito muito frio, até mesmo para um gaúcho, segredou-me um velho senhor dividindo comigo o estreito balcão de uma cafeteria apinhada de gente, na tarde fria da última quinta.
- Ou talvez porque a temperatura no inverno tenha se elevado e as próprias estações por vezes fiquem indefinidas, é que sintamos tanto quando voltamos aos tempos de invernais de outrora, com imagens de geadas nos campos, de sensações doídas de vento como navalha na pele, ilustrou ele a sua própria afirmação.
- Mas o frio tem o seu lado bom, retrucou uma mulher, atenta à nossa conversa de balcão. “Estamos aqui bem agasalhados, tomando um cafezinho fumegante muito gostoso. Em minha opinião, todos ficam mais elegantes no inverno. Há prazeres que o verão nos rouba”, completou.
- A senhora olha à sua volta quando sai à rua? Percebe os que dormem nas calçadas? As crianças? Os animais? Enquanto abrigada confortavelmente em suas roupas consegue pensar naqueles que poucas têm para se cobrir? Que se vestem com trapos e farrapos? E que, além disso, também não podem tomar um café quente ou fazer uma refeição mais calórica?
A essa altura, além de nós dois, a conversa passou a interessar quem estava em volta.
A mulher ficou em silêncio, sorvendo os últimos goles de seu café. Depois, vagarosamente pousou a xícara sob o balcão, pegou as luvas dentro da bolsa e começou a vesti-las, sem pressa. Deduzi que o café já estava pago porque ela deu alguns passos em direção à saída, parando na frente dele.
- Não julgue nem acuse sem o conhecimento da verdade. Para onde o senhor vai quando sair daqui?
- Ora, vou para casa assistir tevê. Reunir-me com a família e, mais tarde, tomar uma deliciosa sopa no pão, especialidade de minha mulher. Acompanhada de um bom cabernet, é claro. Mas o que isso tem a ver com a nossa conversa?
Depois disso, virou-se e saiu. Silêncio e sorrisos amarelos. Quase todos fazendo um ‘me culpa’ e pensando em suas próprias atitudes. Ou na ausência delas.
Rosane Leiria Ávila
Publicada no Jornal Agora http://www.jornalagora.com.br/- 17 de julho de 2010
Insights e sonhos
Escutei o relato abaixo durante uma palestra há algum tempo e rabisquei num bloco que resgatei esta semana.
A mulher tinha o mesmo sonho durante muito tempo em sua vida: estava na frente de um templo junto com um grupo, mas não pertenceia a ele. Depois de uma breve combinação, o grupo entrava, mas ela não. Não entrava porque tinha medo. E tinha medo porque sabia que estava morta e o seu corpo estava enterrado lá dentro.
Anos mais tarde, ela, professora de artes plásticas, acompanhou o marido, também professor, em um estágio na Espanha. Numa tarde, enquanto o marido estudava, ela resolveu caminhar sem um destino definido. E de repente, viu-se diante de um templo. Para sua estupefação, o mesmo que aparecia em seus sonhos. Na frente do prédio, um grupo de turistas que se reunia à volta do guia para acertar detalhes da visita ao local.
Ela se sentiu como se estivesse pregada ao chão. Paralisada pelo medo, não teve coragem de entrar com o grupo. Todos entraram, mas ela ficou ali durante um tempo que lhe pareceu interminável. Fechou os olhos e sua mente começou a mesclar imagens lá de dentro com a rua onde ela estava. Durante um longo período ela ficou parada decidindo o que deveria fazer. Receava que assim como o sonho lhe mostrou, seu corpo estivesse enterrado lá dentro.
Mas foi que, de repente, a professora de artes conseguiu enxergar que aquela era uma oportunidade única em sua vida nesta vida. E que talvez não viesse a se repetir. Então, resolveu entrar no templo e visitar as clausuras. E teve uma regressão a uma vida passada de forma espontânea, na qual enxergou a si própria como um monge que viveu naquele tempo. Num insight, viu que o claustro antes era um jardim cheio de rosas, com borboletas e passarinhos. Emocionou-se e agradeceu aquele momento orando por todos os monges.
domingo, 18 de julho de 2010
Domingo tem cara de domingo
Mas para mim domingo é só o dia de permissão sem grandes explicações; um dia que tem cara de domingo e ponto final. Pode ter o mesmo sol, a mesma lua. Pode ser na mesma cidade, no mesmo bairro, na mesma casa. Mas, dá pra se perceber que é domingo porque tudo fica mais preguiçoso e a vida ganha ar de mormaço... Pelas falas pausadas de todo mundo, pelos movimentos mais lentos...
É dia de atualizar blog, Facebook, Twitter, Orkut, Windows Live... Ou dia de ficar até mais tarde de pijama com cabelo por pentear. De deixar cama desfeita, louça na pia. É dia de não se irritar com coisa alguma. Único para tomar chimarrão acompanhado de biscoitinhos salgados. É dia de cheiro de churrasco na vizinhança. Ou fila na porta de restaurante. Dia pra comer pipoca, de ir ao cinema. De passear demoradamente com o cachorro. De curtir a família. De se juntar aos amigos. De sentar no parque. De observar os outros. De se deixar observar pelos outros...
Domingo é dia de não se importar com coisas sérias, ou melhor, não pensar em coisas sérias. Por isso, recebo o domingo com alma de criança. Às vezes, já no sábado em sua derradeira despedida a menos de um minuto para a meia-noite.
Para os meus domingos, permito-me tudo. Mas recuso-me ver tevê.
domingo, 4 de julho de 2010
O som do silêncio
domingo, 20 de junho de 2010
Walking In The Air
http://www.youtube.com/watch?v=lDh_L9JU5dQ
ou
http://www.youtube.com/watch?v=dMQGqAdEPd4
domingo, 13 de junho de 2010
Flutuando no azul da meia-noite
Por vários dias escutei a mesma música: "Walking in the Air" (composição de Howard Blake para a versão cinematográfica de "The Snowman", livro infantil do autor inglês Raymond Briggs, publicado em 1978. Em 1982, a publicação foi transformada em desenho animado).
Não é uma canção nova e eu já a conhecia, embora uma pesquisa tenha me mostrado um novo arranjo na voz da cantora Chloe Agnew, cantora irlandesa que ficou famosa por sua participação no grupo musical Celtic Woman. Baixei os dois - o original e a adaptação.
Mas por mais que a ouvisse, não me fartava. A sisma se deu depois de um sonho. De um sonho, não. De uma noite dormida pela metade, na qual acordei pelo som interno da música. Ela estava na minha cabeça e havia sido recuperada em minha memória há pelo menos quase cinco anos. O engraçado é que nesse tempo decorrido, eu nunca mais a havia escutado e até não possuo mais o CD.
Na manhã seguinte, a primeira coisa que fiz foi procurá-la na internet. Achei inúmeras versões, em inúmeras vozes, de inúmeros jeitos. Mas eu queria a original. Ou pelo menos, igual a do meu CD perdido.
"Acho que tua alma tinha necessidade de escutá-la", disse-me minha amiga, rindo quando lhe contei minha insaciabilidade.
Passou-se mais de uma semana e minha alma continua querendo ouvi-la. Curiosa, fui procurar a tradução da letra. E entendi por quê.
"Estamos caminhando no ar / Estamos flutuando no céu enluarado / As pessoas lá embaixo dormem enquanto voamos... / Passeando no azul da meia-noite / Através do mundo / As vilas passam como se fossem árvores / Os rios e as colinas / A floresta e os riachos / As crianças de boca aberta contemplam / Pegas de surpresa / Ninguém lá embaixo acredita no que está vendo / Estamos surfando no ar / Estamos nadando no céu congelado / Estamos passando acima das montanhas congeladas / De repente baixamos até o fundo de oceano / Despertando o monstro poderoso de seu sono / Estamos caminhando no ar / Flutuamos no céu da meia-noite / E quem nos vê, cumprimenta-nos enquanto voamos..."
http://www.jornalagora.com.br/site/index.php?caderno=48¬icia=82725
sábado, 12 de junho de 2010
Encontros
E, aí quando menos espero, conheço alguém simpático e solícito que torna mais leve e suportável o ‘enlatamento’. E com o qual travo um breve, mas agradável contato.
A vida é cheia de encontros. Encontros românticos. Encontros agendados. Encontros aguardados com ansiedade. Encontros breves. Encontros alegres ou dolorosos. Encontros chatos e com jeito de dever a ser cumprido. Encontros por obrigação. Encontros para tratar de negócios. Encontros para breves despedidas ou revestidos de eternidade. Mas também de encontros casuais, sem dia e hora marcados. E encontros deliciosamente inesperados entre desconhecidos.
Refletindo sobre esses encontros imprevistos que possuem a brevidade de 30 e poucos minutos, dou-me conta de que seus rastros deixam lembranças por vários dias.
Encontros casuais acontecem a todo o momento e por isso, são leves e despidos de compromissos. Conhecemos pessoas com as quais interagimos, trocamos experiências, confidências, opiniões e até breves piadas, mas que sabemos que a chance é uma em um milhão de as encontrarmos novamente.
Mesmo assim, essa mutação não tira o entusiasmo da troca. Das conversas breves que até mesmo revelam afinidades. Entretanto, em sua grande maioria, não há trocas de contatos. Como se naquele momento a gente apostasse no acaso ou fingisse morar numa pequena cidade interiorana onde todos se conhecem por nome, sobrenome, e onde os segredos estão estendidos em varais ou debruçados nas janelas.
E ao fim de uma breve jornada, as despedidas são tão cordiais quantos o primeiro olhar, o primeiro sorriso, a primeira gentileza. No aceno corriqueiro, fica tacitamente explícita a tenuidade do anonimato.
sexta-feira, 4 de junho de 2010
Assombro
O que me assombra? No momento em que escrevo é esta quarta-feira. Exatamente por já ser ela a metade da semana, por já ser metade do ano, por ter decorrido mais da metade do tempo que tenho pra viver. Em suma, metade de tudo...
Escrevi “tempo pra viver?” Será que dá para brincar com isso, deixando Deus à margem e todas as leis que regem o universo criado por ele, tomando as rédeas da contagem dos dias que ainda me faltam?
A questão é: se isso fosse possível para mim e para todos, o que faríamos exatamente? Qual seria a nossa primeira reação? Prazer por termos poder para ampliarmos o prazo? Uma melhor consciência de como aproveitarmos melhor o tempo que nos resta para fazer coisas úteis, boas e realmente importantes?
O tempo passa mais depressa que nossas expectativas em relação às etapas da vida. E das quais não conseguimos fugir por mais que tentemos burlar a receita prescrita: nascimento, infância, adolescência, juventude, maturidade, velhice e morte.
Embora na juventude possamos pensar no tempo como algo infinito, a verdade é que ele é uma viagem sem volta a cada segundo.
Alias, pensando melhor, tudo na vida tem apenas tickets de partidas sem regressos. Mesmo quando achamos que podemos voltar atrás para nos desculpar com quem magoamos; ou quando tentamos retomar a atenção que negligenciamos quando envoltos no emaranhado das atribuições cotidianas... Quando não encontramos tempo para ir ao encontro do nosso melhor amigo. Quando deixamos tudo para o outro dia, e deste dia para o outro, parando apenas quando sacudidos pelo inesperado – não tão inesperado assim – de que ele já não está mais lá para nos receber com o seu abraço afetuoso, com suas palavras confortadoras, com seu sorriso largo!
O tempo não perdoa nem rebobina o filme para rostos bonitos e corpos esculturais, por mais que a medicina estética avance. Essa inconformidade na aceitação da passagem do tempo só gera arremedos de belezas de outrora, que poderiam continuar sendo belos somente sob um novo olhar.
Rugas e linhas de expressão podem tornar rostos tão belos quanto os de vinte e poucos anos, porque são talhadas pelas experiências de vida e sabedoria.
Quem não repara nos excessos de botox em lábios engraçadamente revirados; nas bochechas salientes, redondas e rosadas quase prestes a explodirem? Ou não olha de soslaio para os seios absurdamente empinados e siliconizados da senhora com mais de 70, na fila do caixa no supermercado?
Na verdade, meu maior assombro da semana foi chegar ao restaurante ontem e saber que a gerente, 27 anos e mãe de um bebê com seis meses, havia morrido no início da manhã, saindo de casa para o trabalho, de repente... Do coração...
E ela nem estava na metade do tempo de vida que poderia viver.
Rosane Leiria Ávila
Publicado no JORNAL AGORA












































