domingo, 25 de outubro de 2009

Contradições

Nós nos contradizemos? Sim, muitas vezes. E contradizer por acaso não é producente? Ou é contra-senso? Num lapso de dúvida, recorro ao Aurélio que me socorre, reforça e dá outras versões à palavra contradizer, as quais são: impugnar, contrariar, desmentir, alegar o contrário ou desdizer... E ainda, categoria fundamental da lógica dialética, ou seja, arte do diálogo ou da discussão'... Gostei mais deste último posicionamento em relação à palavra. Na verdade, ele se encaixa numa justaposição ao fato.

Afinal, contradizermo-nos pode significar mesmo antes de se assemelhar a um posicionamento imaturo ou inconseqüente; exatamente o oposto. Uma percepção inteligente em relação à vida, às nuances e aos acontecimentos... Pode significar estar atento às lições que a vida dá a todos e a qualquer um de nós. Pode, também, nos manter em estado de alerta às mudanças - nossas, dos outros e do mundo como um todo.

E, afinal, toda mudança encaminha o indivíduo para o crescimento. Sim ou não? Com certeza, sim. Mesmo aqueles que insistem numa cegueira voluntária porque não querem enxergar; pois assim sendo, temem ter que mudar.

Há muito tempo, confrontado com uma de minhas contradições, alguém me cobrou um posicionamento anterior a determinado assunto, referindo-se a isso, veladamente, como se uma fosse uma falha de caráter... O detalhe era que essa pessoa recuperou uma referência feita há séculos e já totalmente ultrapassada por diversos fatores: por eu ter amadurecido, por ter mudado, e por tudo à minha volta agora ser diferente.

Fiquei olhando para essa pessoa e pensando no quanto ela estava engessada por suas posições rígidas de olhar a si e aos outros. Arraigada, não se dispôs a abrir-se feito leque ou esponja aos ensinamentos através das experiências que todos os dias todos nós recebemos.

Vejo que sua pouca predisposição de mudar o faz agarrar-se como náufrago desesperado a velhos conceitos e preconceitos, em um flagrante desperdício de tempo. Ah, o tempo! Sempre ele nos dando ou nos fazendo dar voltas!

Rosane Leiria Ávila (crônica publicada no Jornal Agora, caderno Mulher Interativa www.jornalagora.com.br)

contradiçoes - ilustracao

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O tempo dentro de um sonho


A velocidade do tempo me faz compará-lo a um ato de violência. Daquela que acontece de forma inesperada e surpreendentemente. Há semanas, meu referencial comparativo de espanto se dá às quintas, quando começa a “Grande Família” e meu primeiro pensamento é: “estão doidos, o programa foi ao ar há dois dias”.
Mas não. Ele foi ao ar exatamente há sete dias; e quando me dou conta já se passaram mais sete. Juro, que não quero mais brincar com o tempo disparado. Não com esse tempo que voa, que atropela, que me dá a impressão de viver num sonho, de estar em um cometa, sei lá...
Quero um tempo parado. Um tempo com tempo para tudo. Um tempo em que os ponteiros do relógio se arrastem; mas tenho que me lembrar de colocar fora todos os digitais e ficar com aquele velho relógio na sala da avó, com tique-taque e passarinho de madeira saindo para cantar de hora em hora. A mim parecia, enquanto criança, que decorria uma eternidade entre uma e outra saída dele.
Esse tempo cibernético me rouba o tempo para jogar conversa fora com os amigos; para me deitar preguiçosamente à sombra em um dia quente fora da estação; para dar mais atenção aos meus familiares e a mim mesma; para não ter que agir sem tempo de refletir...
Quero um tempo envolto em mansidão. E quero, além de ter mais tempo para tudo, tempo para me lembrar do tempo vivido sem que pareça que nada eu tenha vivenciado. Lembro agora do filme “Um sonho dentro de um sonho” (escrito e interpretado por Anthony Hopkins , 2007), que conta a história de um ator e roteirista que teve sua vida sempre no limiar de duas existências: a da realidade e a de seu mundo interior. Enquanto escreve, vê seus personagens aparecerem repentinamente em sua vida. A partir daí, perde a capacidade de discernir o real do irreal e seu cérebro o leva à beira de um colapso.
Essa velocidade da qual o tempo se utiliza e a qual eu tenho que me moldar, me dá a impressão exata de viver picos de consciência inseridas em cenas diáfanas cotidianas: o dia mal amanheceu e já está na hora do almoço; almoço e parece que recém comecei uma tarefa e já está na hora do café da tarde; mal este acaba e já é noite. E tão logo ela se instala e já chega o primeiro bocejo alertando que está na hora de ir para a cama. Olho para o relógio e já são 1h da madrugada. Tento me lembrar do dia, mas parece que foi um sonho...

(Por: Rosane Leiria Ávila, publicada no caderno Mulher (http://mulher-jornalagora.blogspot.com), do Jornal Agora (www.jornalagora.com.br)

Em cartas inéditas, Dostoiévski dá lições de humanidade

O tradutor Robertson Frizero no lançamento do livro (crédito: Rosane L. Ávila)

Imagem da capa

Poucos escritores conseguiram trabalhar suas tragédias pessoais com tanta humanidade quanto Dostoiévski. Suas cartas ganharam tradução inédita em português em lançamento da Editora 8INVERSO.

O lançamento da obra aconteceu no auditório da Livraria Cultura do Shopping Bourbon Country, em Porto Alegre, no dia 15 de agosto último. O livro Dostoiévski – Correspondências – (1838-1880), do tradutor Robertson Frizero, atraiu a atenção do público que lotou o local para a breve apresentação e leitura de fragmentos da obra.

O evento contou ainda com a participação especial do ator Marcelo Almeida na leitura dramática de alguns trechos da obra, publicada pela Editora 8INVERSO. Esta é a primeira vez que uma coletânea de cartas do grande autor russo é publicada em língua portuguesa.

Antes, porém, o editor Cássio Pantaleoni fez uma breve introdução do empreendimento, considerado ousado tanto pela tradução quanto pelo próprio projeto editorial.

Fundada em 2008 por Pantaleoni, também escritor e filósofo, a Editora 8INVERSO tem como foco a qualidade em primeiro lugar, e ainda este ano deverá lançar mais três títulos de peso. “Nosso intuito é recuperar algo que foi perdido no mercado literário”, justificou o editor.

Tanto o editor quanto o tradutor ressaltaram a importância da obra e a riqueza de suas referências. "É um livro projetado para proporcionar um conhecimento mais aprofundado sobre o interior deste autor russo, bem como fornecer dados sobre época, personalidades e situações que permeiam a biografia de Dostoiévski".

Para o tradutor Frizero, o conteúdo das cartas revela bem mais sobre a personalidade de Dostoiévski, daquela que o mundo literário já conhecia. "Nas cartas são mostradas não só sua intimidade, através de suas fraquezas, tristezas ou culpas, mas também fatos marcantes que influenciaram fortemente sua formação como escritor. Muitos, refletidos em personagens e situações descritas em sua obra”.

Segundo ainda Frizero, o leitor terá uma oportunidade de desfrutar de uma verdadeira aula sobre o que é ser um escritor. Através das cartas do escritor, é possível se conhecer o que se passava com o autor no momento em que ele estava fazendo literatura. Elas falam sobre o dinheiro escasso para escrever; na pobreza vivida; na melancolia que o assolava. Também sobre a dificuldade de expor seus sentimentos, embora os sentisse com intensidade.

Selecionar em torno de 250 cartas e traduzi-as foi um processo bastante difícil, contou Robertson Frizero. “Ainda mais tendo o cuidado de respeitar os tons com que foram escritas”, disse ele. O livro mostra a formalidade ou informalidade de Dostoiévski, conforme as cartas se apresentavam.

Para tornar a leitura mais compreensível para o leitor, o livro foi dividido em quatro sessões, que levou em conta alguns critérios como: fatos da vida pessoal dele, o processo como escrevia e trabalhava os textos; os fatos que ocorriam na Rússia e as análises feitas pelos escritores sobre o cotidiano do povo russo.

Através das cartas o leitor se emocionará ao ver o amor de Dostoiévski pelo seu irmão mais velho e seu melhor amigo (que também tinha pretensões literárias); sua paixão contida por uma senhora casada e que viria a se tornar sua esposa após a viuvez dela. Ou se revoltará com os relatos de sua prisão e a tortura mental de sua sentença de morte. Junto com outros presos, ele foi levado aos rituais finais de execução, cancelada no último segundo. O ato foi uma encenação para possibilitar a expressão de um “generoso perdão” do Czar. Esse fato, contou o tradutor, causou um grande impacto em Dostoiévski.

Vieram depois o exílio e a tragédia pessoal vivenciada pela perda da filha Sonia. Ela morreu com apenas três meses de idade, em Genebra, no dia 18 de maio de 1868. Para ele, um fato irreparável do qual custou a se recuperar. Ou não se recuperou, já que descrevia seu sofrimento com intensidade, assim como o imenso amor dela por ele, apesar da tão tenra idade.

“Enfim, poucos escritores conseguiram trabalhar suas tragédias pessoais com tanta humanidade. Dostoiévski fala de tudo em seus personagens e em sua literatura. O livro é um convite para que se conheça sua obra”, encerrou Frizero. A obra oferece também um interessante panorama sobre o meio literário do século XIX.

Em um banal desabafo ao irmão, escrito em 17/09/1846, já que ele próprio solicitava uma correspondência mais ativa entre os dois, Dostoiévski, diz: “Cartas são um absurdo; apenas farmacêuticos escrevem cartas”. E graças a isso ser desabafo destituído de qualquer intenção contrária, é que o leitor pode desfrutar da grandeza literária desse grande escritor russo, trazida à luz no mundo da literatura por essa profícua correspondência.

O lançamento neste mês de agosto, oito no calendário, foi totalmente intencional, segundo Cássio Pantaleoni. “Tudo precisou ser feito muito rápido para aproveitar a data, já que tem tudo a ver com o nome da 8INVERSO”, revelou o editor. (Por: Rosane Leiria Ávila)


SERVIÇO:

Dostoiévski – Correspondências - (1838-1880)

Tradução: Robertson Frizero

248 páginas - R$ 54,00

Editora 8INVERSO

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Dar é bom, mas às vezes nos arrependemos


Dar é bom. Mas às vezes você acha que fez besteira e bate uma sensação de arrependimento... Acorda numa fria e manhã de domingo no auge do inverno, se perguntando por que se desfez daquele magnífico casaco de pura lã, produzido por uma marca tradicional já extinta e usado tão poucas vezes! Mesmo que o modelo fosse clássico, pois, para roupas caras o investimento só vale a pena para peças que em tempo nenhum sairão da moda.Pensar também que você jamais voltará a adquirir um modelo semelhante, até porque o fabricante já não existe mais, a poderá ainda deixá-la um pouco mais para baixo.Mas aí, como tortura pouca é bobagem, você aproveita para também pensar naquele blazer xadrez de linho puríssimo, de uma das mais conceituadas griffes mineiras e que era o objeto de desejo de suas amigas... Neste caso específico, você recorda que o corte dele tinha saído de moda. Mas, ora bolas! Moda vem e vai e vem de novo! Por que não esperar o retorno?Porque certas peças do nosso vestuário, apesar de ainda perfeitas e atenderem ao fim ao qual foram feitas, nos incomodam tanto quanto palavras mal ditas (ditas num impulso sem pensar)... Ou seriam malditas (no sentido de malignas)? Algumas roupas em nosso armário acabam, por nossa imaginação, carregadas de cargas emocionais. A manhã fria, fruto de sucessivos dias chuvosos, me fez lembrar ainda o quanto aquele casaco me aquecia e me dava a agradável sensação de calor de colo de mãe. Mas, que foi, a certa altura, substituída pelo desconforto de lembranças que deviam ser deixadas no passado, como páginas de um livro que jamais voltaria a folhear. O que me serviu de consolo no ataque saudosista daquela manhã, foi imaginar o quanto o casaco estaria aquecendo outra pessoa. Dar para esquecer, imagino ser uma das causas de se vincular fatos vivenciados aos objetos. Se eles foram agradáveis, é provável que se leve mais tempo para praticar o desapego... Se trazem à tona lembranças não muito boas (mesmo não traumáticas), ou suaves como a de uma juventude diáfana, então o que se deseja mesmo é tirá-los dos armários e do alcance dos olhos, a exemplo das velhas fotos em papel que particionam nossa história. Escondidas no fundo de um armário em álbuns que não foram manuseados nos últimos cinco ou dez anos, provavelmente também não o serão nos próximos 20. E de lá só sairão à luz do dia manuseados por nossa terceira geração, provavelmente, quando já não mais estivermos por aqui. E nem mesmo nossos descendentes vão querer guardá-las. Afinal, agora a vida é virtual e o mundo todo a guarda no Orkut.


Rosane Leiria Ávila

sábado, 8 de agosto de 2009

“Quando se pede com vontade, Deus atende”


Ele fez de sua existência um belo caminho e um belo presente. Poucos textos (in natura) para serem editados me tocaram tanto. Mas a bela matéria do repórter Bruno Kairalla veiculada no último FelizIdade sob o título “Prolífera paternidade”, conseguiu me impressionar e me fazer refletir sobre o quanto é maravilhoso ver alguém dar um sentido maior à sua vida, um sentido verdadeiro à sua existência.
Assim como eu, acredito que muitos leitores se sentiram emocionados pela matéria. Em tempos de indiferença ou apatia social, é reconfortante ver que há pessoas que são capazes de plantar em nossos corações e à sua volta, sementes de esperança de que o mundo pode ser melhor.
“Quando se pede com vontade, Deus atende”, disse o entrevistado. Acredito que o senhor Carlos Klinger tenha pedido, não só como relembrou ao repórter para que tudo desse certo às vésperas do nascimento de seu terceiro filho (que saberia depois ser filha), mas que ele também tenha pedido antes mesmo de vir, para que sua reencarnação fizesse sentido e fosse empregada em benefício de outras pessoas. E Deus o atendeu...
Uma lição bem feita e que certamente começou no plano espiritual, e nela lhe renderá mais dividendos para uma próxima, desconfio. E também para a construção de um bom carma.
Pelo menos milhões têm a mesma chance, a mesma oportunidade que teve esse senhor, contador por formação, engenheiro por intuição e benfeitor de coração, de se comprometerem com o bem. Mas preferem pegar a contramão dos bons sentimentos e das boas ações. Têm predileção em escrever por linhas tortas histórias mais tortas ainda, expressas com sangue, violência, desamor... Quando poderiam, assim como ele, vivenciá-las minuciosamente com solidariedade, compaixão, amor e respeito ao próximo, ao planeta e todos os seres que nele habitam.
E mais adiante ele também nos dá um lição de humildade e virtude quando conta que fez um “desabafo arrogante” à Nossa Senhora por causa de uma séria isquemia que lhe deixaria graves sequelas. “Fiquei arrependido no mesmo momento e pedi para Ela que me levasse embora, pois não merecia seu perdão.”
Mas 30 horas depois ele começou a melhorar e perdeu apenas a audição do seu ouvido esquerdo. Quantas vezes ao fazermos uma prece, a fazemos de forma egoísta e grosseira sem sequer nos darmos conta de nossa insolência? Simplesmente por nos parecer “tão natural” pedir nos achando merecedores de receber?

Rosane Leiria Ávila
[Crônica publicada no Jornal Agora www.jornalagora.com.br, caderno Mulher Interativa

O peso da balança


Você já imaginou ver-se fora de si mesmo? Como os outros o vêem? Tudo bem, se chegar à conclusão de que os outros não o conhecem. E provavelmente não o conheçam mesmo. Não na sua essência, na sua verdadeira identidade. Provavelmente, o que você tenha exposto na sua vitrine durante todos esses anos, tenha sido o que você queria que os outros admirassem – ou temessem -, em você.
Experimente fazer um jogo: imagine por um breve momento se enxergar como os outros o enxergam. Avalie-se com os olhos dos outros. Mas para isso será preciso deixar de lado o orgulho e se permitir pressentir dentro de você.
Necessário também será se despir da vaidade para você mesmo. Da mesma forma, pensar que nesse momento não precisa encenar nenhum personagem. Basta apenas se olhar com a maior honestidade que for capaz.
Então, e só então, pergunte-se o que ali está vendo: alguém com capacidade de amar, de perdoar, de se doar? Com coragem de mudar? Ou um arremedo de um ente que tenta, em vão, convencer-se de que é feliz, mesmo que para isso tenha que cerrar os olhos e cobrir os ouvidos aos ecos da dor do mundo?
Tire a longa e pesada capa de insensibilidade com a qual se veste. Tire também as máscaras de dono da verdade, dessas verdades que se quer acreditar como verdadeiras, únicas e absolutas. Vou mais além e ser mais dura: dispa-se como se caminhasse para o próprio velório. Sem bens e sem adornos. Apenas com a roupa que lhe cobre o corpo, pois é só com ela que estaremos no momento derradeiro.
Experimente o momento para a sós ficar com Deus. E à sua frente, coloque uma balança. Deposite de um lado a fé, o amor, a compaixão, a paciência, a piedade e o perdão, os verdadeiros alimentos saudáveis da alma. No outro, o orgulho, o cinismo, o ciúme, a ganância, a arrogância, a competição, a raiva e o ódio...
Mas seja honesto e aceite se a balança entornar para o lado dos sentimentos ruins. Porque mesmo que isso aconteça e que o peso seja muito grande, ainda dará tempo para mudar. Você ainda terá tempo para se reinventar e fazer o outro lado da balança subir.

Rosane Leiria Ávila
Crônica publicada no Jornal Agora (www.jornalagora.com.br), caderno Mulher Interativa

sábado, 18 de julho de 2009

Pequenos prazeres: seja boa para você mesma

Você já se sentiu deprimida e foi às compras? Seu astral estava baixo e foi para o salão - fez unhas dos pés, das mãos, cortou e mudou a cor dos cabelos como se agindo assim, cortasse o mal que lhe afligia? Calma... Não se mortifique pois você não é a única. Muito pelo contrário: faz parte de uma tribo de milhões de mulheres que, no meio de um surto de baixa-estima vai para as lojas e para os salões para se fazer “um agradinho”.

E é isso mesmo: agradar a si mesma, fazer um mimo por você faz bem até mesmo fora de um surto. Você não precisa esperar um dia especial para abrir aquele vinho maravilhoso que vem guardando há um tempão. Ou para vestir aquele esplêndido casaco italiano que você pagou em euros ou dólares. Você não precisa esperar uma data importante. E nem alguém importante como o príncipe dos seus sonhos de menina. Você é a sua rainha. Você é que é importante... E deve se bastar, e bastar tanto que justifique uma comemoração sem data e hora marcadas pelo calendário. Faça de hoje o seu dia mais especial. E o de amanhã também.

Sabe aquela pessoa que vivia guardando tudo para uma ocasião especial? Guardava coberta de mesa para jantar formal, o champanhe francês, (claro, senão é espumante), e até perfume? Guardava tanto tudo que se guardou da vida. Não viveu. Não desfrutou dos momentos presentes como únicos e como dádivas, achando sempre que o melhor ainda estava por vir... Ela queria estar sempre prevenida.

Pois é. Acabou morrendo de repente e suas relíquias guardadas para as datas especiais que nunca aconteciam, foram desfrutadas à luz do dia e sem cerimônia alguma. E dela a lembrança durou o tempo de sua herança, pois em vida não plantou gestos de amorosidade nem por si, nem pelos outros. Recolheu o que deixou: uma tênue lembrança a se diluir na brevidade das horas.

Pois então, mãos à obra: inclua quem você gosta nos seus “agradinhos” básicos. Não espere datas comemorativas. Não guarde seus sorrisos nem economize seus afagos como preciosidades para dar em dia especial. Dê hoje.

Sei de muitos casos e muitas histórias de pessoas que esperaram demais para se abrirem à vida, que a vida acabou se fechou para elas e lhes tomando o corpo de assalto. Ou, se abriram em pequenas e contidas doses insuficientes para desfrutar pequenos prazeres.

Não deixe para amanhã. Aliás, nem deixe para daqui a pouco. Há muitos jeitos e formas de fazer deste seu dia, um dia especial. Algumas poderão lhe parecer inicialmente insensatas, extravagantes e caras. Mas outras serão, com certeza, sensatas, econômicas e até mesmo grátis, como uma declaração ou um gesto de amor.

Você quer a sugestão de um livro cheio de ‘pequenos prazeres’? Pois é este mesmo o título dele, e há idéias para muitos mimos. Muitos para você mesma, outros tantos para outras pessoas. A esses, a autora dá o nome de ‘prazeres generosos’. (Pequenos Prazeres, Cynthia MacGregor, Publifolha)

Rosane L. Ávila MULHER INTERATIVA

pequenos prazeres4

Viagem no tempo

Esta é uma viagem não de verdade, dessas que a gente sonha, planeja, compra passagem e arruma mala com muitas roupas e expectativas...
É uma viagem no tempo passado, vivido, experenciado. Nesta viagem embarco na máquina do tempo do famoso professor Ludwig, amigo do professor Pardal (quem não se lembra dos quadrinhos do inesquecível Walt Disney?) e saio em uma aventura, por vezes, reparadora ao extremo. Por outras, de pura bulimia emocional.
O projeto ilusório já vinha há dias me aliciando. Principalmente, quando leio as notícias ruins nos jornais , internet ou as assisto na tevê. Só as perversas, sim, porque nas boas e alvissareiras, que são em número bem menor,  nem passaria pela cabeça contrafazê-las.
E foi exatamente lendo uma nota sobre o lançamento de “Para Sempre Teu, Caio F.”, de Paula Dip (Ed. Record) que essa viagem maluca acabou aterrissando no papel. O livro é uma biografia sobre um dos melhores escritores brasileiros (ele era gaúcho, natural de Santiago – 1948/1996), montado a partir de cartas, bilhetes e confidências trocadas entre Caio e sua amiga Paula, que conseguiu a proeza de resgatar um pouco da diversidade do escritor. Graças a ela, mais um pedacinhho de Caio ficará perpetuado na palavra escrita e editada.
Nessa máquina do tempo, durante a viagem, desacelero o progresso que atropelou a natureza, os costumes e tradições, derrubou árvores, devastou florestas, poluiu rios; colocou espécies em risco de extinção; revisito amigos antes da partida deles, encantada pela chance de alertá-los para o perigo que os vitimou. Desfaço atitudes feias, pequenas, baixas, mágoas impingidas, ressentimentos desnecessários.
Na máquina do tempo me reencontro até com minha avó e lhe digo que deveria ter gostado mais de mim quando pequenina, pois fui a adolescente chata que a levava da casa de minha mãe para a de minha tia durante seus surtos de ‘caduquice’. Hoje, conhecido por Alzheimer.
Na engenhoca do professor Ludwig alerto Lennon para não ir ao Central Park naquele dia, digo a Elis para se cuidar mais porque havia um caminho lindo ainda para ela trilhar; a Vinícius para beber menos e diminuir a boemia, e a Gonzaguinha para deixar a estrada para o outro dia, e não dirigir após o show...
Na incrível máquina de Ludwig conserto tudo: de gente a mundo. E impeço até atos bárbaros por motivos fúteis e inexplicáveis em todas as esferas: razão, emoção, espiritualidade... Como a tal chacina de uma família inteira por causa de meia galinha presenteada a um casal de invejosos vizinhos... É que o presente oferecido não foi a da melhor parte da ave, conforme alegaram os assassinos, que de uma só vez mataram o pai, a mãe grávida de gêmeos e três filhos.
Foi bom sonhar um pouquinho com a engenhoca de Ludwig.

Rosane L.Ávila

Mulher Interativaviagem no tempo

quinta-feira, 9 de julho de 2009

UM COGUMELO NO BREU DA NOITE

cogumelo

 

O cogumelo no breu da noite de lua cheia e de calmaria de ventos, brilhava assustadoramente no céu. Ou surpreendentemente. A primeira imagem que o pensamento que a visão me remeteu foi àquela famosa visão que o mundo jamais deve esquecer: a da Bomba de Hiroxima.

Passados alguns dias, eu ainda não sei se foi uma miragem dos meus olhos; fruto de minha imaginação, ou uma crise de sonambulismo.

O fato que lembro é que o meu segundo pensamento foi pegar a câmera fotográfica. Mas eu não consegui desgrudar meus pés do chão para pegá-la no armário.

Pensei se o tempo teria dado um pulo e se já estaríamos no tão falado 2012. Ou se o mundo, cheio de nós, tivesse resolvido se antecipar ao fim.

Bem, o relato acima foi um sonho dentro de um sonho. Mas quando acordei, de verdade, fiquei pensando no quanto vamos impingindo ao planeta, às pessoas, aos animais, à natureza, situações extremas sem sequer nos darmos conta da gravidade delas.

Mas acho que é quando a vida foge do corpo por motivos fúteis; ou por lapsos de uma consciência e responsabilidade maiores, que isso se torna mais nítido.

São exemplos disso, a Van Escolar sem qualificação para tal e em alta velocidade, que se chocou contra um caminhão-tanque na pista, matando quatro crianças no último dia 1º, no Rio; ou o motorista que sentiu-se incomodado pela vagarosidade do veículo à sua frente, ultrapassou-o e atirou no outro condutor, matando um jovem de apenas 22 anos, no mesmo dia, mas em São Paulo.

E, em meio a um caos, o improvável: a sobrevivência de uma adolescente de 14 anos no mar durante 12 horas, depois da queda do avião da companhia aérea Yemenia, que ia de Sanna, capital do Iêmen, para Moroni, capital das ilhas Comores. Personagem de um verdadeiro milagre, ela estava a bordo do Airbus A310 e foi a única sobrevivente entre as 153 pessoas que estavam no vôo.

São esses istmos que nos faz ter esperança num universo de desesperançosos acontecimentos.

Rosane Leira Ávila

http://www.jornalagora.com.br/site/index.php?caderno=48&noticia=67772

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Leilões íntimos



Enquanto pensava num tema para a crônica desta semana, por mais que vários assuntos pipocassem à minha mente, não me sentia atraída especificamente por nenhum. Até que por volta das 15h da última quinta-feira, precisei sair. O destino? Um leilão.
Você já foi a algum leilão? Eu nunca, até então. Pensei encontrar uma cena daquelas vistas em filmes - muitas pessoas confortavelmente sentadas num amplo salão, enquanto um impecável leiloeiro ia oferecendo os bens... Tipo leilão de artes, que é a referência eu tinha oriunda de filmes.
Mas, para minha decepção, o que encontrei foi um grande depósito entulhado de equipamentos, móveis, máquinas, computadores e eletrodomésticos velhos. Tudo caindo aos pedaços... Quase sucata coberta de pó. Mais parecia um brique do que um lugar onde bens em perfeitas condições de uso estão à disposição da Justiça para serem vendidos.
Olhei para a meia dúzia de pessoas que lá estavam, buscando o por quê de comprarem objetos que são mais entraves do que qualquer outra coisa.
O cenário me remeteu à vida de algumas pessoas cujas casas eu vi e se assemelham àquele depósito de leiloeiro. São geralmente pessoas que têm um alto grau de apego aos objetos, depositando neles fios indeléveis de saudosismos e links com um passado que não voltará jamais. Como se as lembranças não estivessem para sempre guardadas na memória. E isso já bastasse.
Para mim, pessoas assim são incapazes de se modernizarem, de arejarem seus espaços e suas próprias vidas, abrindo lugar ao novo... Pelo perfil, também têm dificuldades em colocar um fim em relacionamentos falidos, antigos e frustrados.
Se promovessem um “leilão íntimo”, se livrariam de todos os velhos e arraigados conceitos ou ressentimentos que acumulam por anos a fio.
A vida é curta - um breve sopro entre duas eternidades. Mas insistimos em viver como se tivéssemos um tempo infinito.
Na verdade, o temos. Mas não nesta vida presente. E é do presente que falo. Da felicidade. Da leveza. E da coerência que devemos ter nesta materialidade que nos ampare e sirva de lastro a uma próxima, que certamente virá. E dessa forma, com certeza, um pouco da ‘lição de casa’ já estará feita.
(Publicado no jornal Agora http://www.jornalagora.com.br/ em 06-07 jun 2009) 
 

sábado, 6 de junho de 2009

Quando a alma quer respostas

Liberdade e aventura. O filme não está estreando nos cinemas ou sequer é lançamento nas locadoras. Rodado em 2007, “Na Natureza Selvagem” tem direção de Sean Pean e traz no elenco Emile Hirsch, William Hurt e Catherine Keener.
“Into the Wild”, seu nome original, recebeu duas indicações ao Oscar e conta a história de um rapaz de 23 anos que resolve viajar pelos Estados Unidos´, logo após sua formatura na universidade.
Christopher McCandless, esse é o seu nome, quer buscar a si mesmo e encontrar o sentido da vida e a razão para se viver. Sem pressa de percorrer o caminho até encontrar a resposta ao seu questionamento, tem apenas uma idéia fixa e da qual não abre mão: ir sozinho para o Alaska em pleno inverno.
Até conseguir seu intuito, durante dois anos ele vivencia situações, pessoas e lugares diferentes. O interessante é perceber como a sua simples decisão afeta, e por vezes altera, a vida das pessoas com quais vai travando conhecimento. E que ao decidir ser um viajante solitário  apagando rastros para não ser encontrado, não tinha ainda noção de como a dor que deixou como legado a seus pais os melhoraria interiormente.
O filme é baseado no livro "Into the Wild", de Jon Krakauer, e conta a história verídica desse rapaz introspectivo e pertencente à rica família McCandless, de Atlanta, EUA, que autorizou sua divulgação.
Com uma bagagem cultural grandiosa, ele é imbuído de uma pureza de sentimentos e inconformidade com a mesmice. Quer entender por que milhões de pessoas buscam na riqueza externa o apoio para suas migalhas interiores.
Para sair da casa dos pais, o rapaz se despoja de tudo - dos quase 24 mil dólares reservados para o seu futuro, do carro antigo e de tudo que possui um valor monetário.
Para sobreviver, vai prestando pequenos serviços por onde passa. E viajando de carona em carros, caminhões ou em vagões de carga de trens.
Sua alma anoitece, amanhece, se alegra, se entristece; se enriquece e se anuvia em sua caminhada de busca.
Quando encontra sua resposta - e ela é tão simples - já é tarde demais para ele, que torna-se refém da natureza.
O filme é delicado e sensível e nos obriga a uma reflexão. Ou a várias. A principal delas é que sempre buscamos complicar as coisas para poder explicá-las com a arrogância de um falso saber. Quando no fundo, tão pouco sabemos a respeito de nós mesmos como seres atrelados a constantes reinícios e fins. Sempre a buscarmos o que é tão evidente. Mas que por ser assim tão evidente, nos deixa completamente cegos à sua luz de consciência e sapiência.

Rosane Leiria Ávila

Publicada no Jornal Agora http://www.jornalagora.com.br , caderno Mulher Interativa, 30-31 de maio de 2009.na

sábado, 16 de maio de 2009

LEITURA - MAIS FELIZ QUE DEUS


A vida foi feita para sermos felizes. Você acredita nisso? É verdade. Sei que pode não parecer quando você olha à sua volta, mas é verdade. A vida foi feita para sermos felizes. Você existe para ser feliz. E se por acaso você é feliz, deveria ser ainda mais. Mesmo que você já seja muito feliz, pode ser ainda mais. Quanto mais? Exatamente quão mais feliz você pode ser? Bem... você pode ser mais feliz que Deus”.

Se você já leu algum livro de Neale Donald Walsch certamente reconheceu sua linguagem e seu modo incisivo de conversar com o leitor. Autor da série “Conversando com Deus”, obra traduzida para 37 línguas, lida por milhões de pessoas e que figurou por dois anos e meio na lista dos mais vendidos do New York Times, ele agora volta a afirmar que temos o poder de transformar nossa vida numa experiência extraordinária em seu mais novo livro “Mais feliz que Deus”.

Mais feliz que Deus”, 184 páginas, R$ 29,90 é uma publicação da Agir Editora.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Vilões


Vilão, vilãs... Há histórias para contar sem a presença deles? Praticamente impossível. Pelo menos eu não consigo lembrar alguma. Seja em telenovela, livro, cinema ou peça de teatro e até mesmo em letras musicais. Parece que há sempre uma balança onde o bem e o mal deve ser pesado. Os bons de um lado e os ruins do outro.

Embora algumas histórias – famosas por sinal -, elejam apenas um vilão e nele centre todo o enredo da trama, o que se percebe atualmente é que essa fórmula está ficando em desuso. Ou não estava mais surtindo efeito, pois o que se tem assistido é uma profusão, ou melhor, uma salada de vilões em um mesmo folhetim. Vejam o exemplo da novela “Caras & Bocas”, de Walcyr Carrasco. Mãe, filha, filho, ex-namorada, pai dela e outros tantos que se movimentam apenas no intuito de praticar o mal contra a mocinha da trama, interpretada por Flávia Alessandra.

Isso nos deixa confusos quanto ao recado que o autor quer passar... Poderia ser a mensagem de que o mundo é deles? A beleza e o sucesso também? E o carisma? A boa moça ou o bom rapaz se tornaram chatos, insípidos? Excetuando-se as velhas histórias infantis onde a bruxa era feia, velha, desdentada e cheia de verrugas, as malvadas de hoje possuem beleza e ambição social e intelectual, pois são esses as chamas da vaidade que alimentam o ego. E o ego cobra sempre mais de quem tem uma baixa auto-estima. Por mais contraditório que isso possa parecer.

Em um passado ainda recente, o Brasil assistiu as maldades da personagem Flora, interpretada magnificamente por Patrícia Pilar na novela “A Favorita” da Globo. Nos capítulos finais quase se sublimou as maldades dela, tamanho foi o seu carisma. A personagem se valeu da beleza e da escolha de um visual impecável no vestir, tornando agradável a visão da sua imagem. Foi uma química perfeita. Enquanto mocinha, na primeira parte da trama, era o típico patinho feio.

Em “O Bem, o Mal e mais Além”, o psiquiatra e escritor Flávio Gikovate faz uma reflexão entre os generosos e e os egoístas, leia-se bons e maus, e como um olhar mais aprofundado sobre os dois nos faz perceber que, por vezes, há uma linha tão tênue entre eles que se torna extremamente difícil estigmatizá-los. “O bem e o mal não são entidades afetivas; são construções, quase mitos, que foram elaboradas ao longo dos milênios e, de certa forma, transformadas em uma dualidade tida como inevitável. Deus e o Demônio lutam e lutarão para sempre! Assim, o bem depende do mal para se definir e ter existência, da mesma forma que o mal é definido por comparação com o bem”, diz Gikovate.

Devemos deixar de nos comportar como viciados das sensações que adulam o nosso ego. Há uma saída para nós reagirmos ao mal, deixando-o refém dos folhetins. O próprio Gikovate aponta a direção: “É preciso muita força interior para resistir às pressões que sofremos para aderirmos às tentações. Precisamos estar conscientes e atentos o tempo todo.”  

Rosane Leiria Ávila (publicado no caderno Mulher Interativa, do Jornal Agora, www.jornalagora.com.br, ed. 16 e 17 de maio de 2009)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Esperança nos vôos dos Falcões


Quando o homem se socorre da vida animal para proteger o próprio homem, a gente pensa que pode, sim, existir algum respeito ainda. E reconhecimento pela vida inteligente do reino animal. 
O aeroporto Salgado Filho em Porto Alegre treina desde o ano passado oito falcões para a segurança do local. Essas aves terão como missão evitar que outras aves provoquem acidentes às aeronaves. A medida já vem sendo utilizada de forma experimental em Minas Gerais e é utilizada na Europa, Chile e Argentina. Mas o Rio Grande do Sul poderá sair na frente no inusitado controle de segurança dentro em breve, com o treinamento dado por concluído.
Os falcões foram treinados pelo biólogo Gustavo Trainini e estão aptos a identificar e atacar outras aves nas imediações do Salgado Filho. A conclusão também é de que somente a figura do predador no céu faz com que as outras aves se evadam. Além disso, o método tem a vantagem de ser 100% ecológico.  
Mais ou menos como aquela velha história que cresci escutando: gatos afastam ratos. Os mais antigos diziam que apenas o cheiro de um gato em uma casa era suficiente para que os ratos não passassem por perto. Os roedores mais ousados ou aqueles que desacreditavam de seus instintos, viravam almoço ou jantar do felino. 
Há alguns anos, li uma notícia de que o governo italiano estava incentivando os cidadãos de algumas cidades históricas da Itália como Roma, Nápoles e Veneza a criarem gatos. Isso porque haviam colônias de ratos e isso prejudicava o turismo. 
Se essa atitude do homem de socorrer-se do reino animal não fosse tão tímida se comparada ao que ele maltrata e desrespeita, seria um fato alvissareiro. Mas o que se vê é que os animais são tratados de forma indecente e inaceitável. Perdem a vida por causa da luxúria de mulheres, sofrendo escalpelações em vida para que suas peles não sofram prejuízos econômicos na morte. São privados de viverem com um mínimo de dignidade ao serem confinados em míseros espaços em fazendas criadouras, ou em transportes “de carne viva” em navios escravos, em cenas que excedem a compreensão de quem se aventura a pensar a respeito. 
O que alenta por um lado é que mesmo tímidas, ações desse tipo ocorram. Por outro, que existam pessoas que fizeram da sua voz, a voz dos animais. Que denunciam, lutam, se dedicam e se sacrificam para defendê-los. 
Neste mês de maio um evento oferecerá uma boa oportunidade para quem quiser conhecer melhor a realidade por trás das pesquisas. O 1º Seminário Regional dos Direitos dos Animais, intitulado "O Ensino e a Pesquisa sem Crueldade", que ocorre no próximo dia 14, às 19h, no Auditório das Promotorias de Justiça de Pelotas, discutirá fatos éticos e jurídicos na utilização de animais no Ensino e Pesquisa. A grande maioria das pesquisas que utilizam animais são desnecessárias e os laboratórios se assemelham a Auschwitz. O evento contará com a presença do promotor de Justiça de Laerte Fernando Levai, e é promovido pela SOS Animais (Pelotas) e Amigo Bicho & Cia (Rio Grande), com apoio do Ministério Público do Rio Grande do Sul.

Rosane Leiria Ávila
[Publicado no Jornal Agora www.jornalagora.com.br, caderno Mulher Interativa, 2 maio 2009]

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Poucas e... nada boas


Ufa! Finalmente o BBB9 chegou ao final. Embora eu não tenha assistido a um mísero episódio sequer, a exemplo dos seus antecessores, é um alívio saber que a tevê ficará livre de tanta bobabem! Como se o Brasil fosse uma maravilha, os serviços funcionassem bem; não houvesse violência nem descontrole da miséria ou desvalorização da vida, e os brasileiros, não sabendo o que fazer com o ócio de uma vida boa, tivessem como única opção direcionar a atenção aos BBBs. 
Ora, o dito programa televisivo chegou ao final com uma audiência maciça, como se não  houvessem problemas suficientes para os quais o povo devesse realmente “estar ligado”.
Nesta semana, apenas para citar um ínfimo 'probleminha' na ponta de um iceberg gigantesco, o Senado criou novas regras para divulgar atos administrativos. Na prática, restringiu o acesso de jornalistas a informações importantes ao povo, e só responderá as perguntas feitas pela imprensa até cinco dias depois. A desculpa? Normatizar o serviço, já que o número de solicitações é muito grande e os 'técnicos' precisam de 'tempo' para responder. Mas na verdade, essa nova regra só foi adotada após o Senado se tornar alvo de inúmeras denúncias de irregularidades administrativas. 
Entre os 'arranjos' que vieram à tona através da imprensa, está o pagamento de horas extras durante o recesso parlamentar de janeiro para mais de três mil funcionários do Senado. 
Ou a da senadora e líder do governo no Congresso, Roseana Sarney (PMDB-MA), que resolveu “bancar” com cotas de passagens do Senado, a viagem de sete parentes, amigos e empresários do Maranhão para Brasília. 
Ah, tem ainda os mais de  R$76 milhões que a Câmara dos Deputados vai gastar na reforma de apartamentos funcionais em Brasília. 
A propósito: quanto é destinado e chega para a Saúde, mesmo? O Hospital de Clínicas de Porto Alegre, que imagino ser apenas um de tantos por este país afora, está sofrendo uma ação judicial porque, para poder se gerir, está também atendendo convênios particulares, ao invés prestar serviços somente a pacientes do SUS. Mas, segundo o hospital, a verba que o Ministério da Saúde faz chegar ao seu setor financeiro é insuficiente para manter a instituição funcionando.
Ah, bem! Você não sabe o valor da verba, não é? Tudo bem, eu também não. Só o que sei é que não quero que a imprensa e os jornalistas não sejam 'amordaçados' por uma democracia mascarada. Por um regime democrático que  nos obriga a votar, quando o voto deveria ser uma opção de todo o cidadão. E que a 'tal obrigação', leva às urnas milhares de brasileiros que teoricamente não teriam condições de discernir o que é certo do que é errado, e que acabam legitimando parlamentares espertinhos e suas más ações políticas, que acabarão se voltando contra eles próprios, ou melhor, contra todos nós, o povo!
Sorry! Era para falar da Páscoa! Mas não deu porque está faltando cada vez mais ao ser humano amorosidade e respeito pelo próximo. E isso, em minha modesta opinião, está se tornando cada dia mais utópico. Melhor então, encerrar com aquela famosa e batida frase da apresentadora Ana Maria Braga: “Acorda Brasil”!

Rosane Leiria Ávila
Publicado no Mulher Interativa, 11-abril-2009
JORNAL AGORA
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Verdades & Mentiras

Por que é tão difícil lidar com a verdade e tão mais fácil falar uma mentira? E por que as pessoas tendem a se magoar com uma verdade, quase obrigando as outras a trapaceá-las com uma mentira?

Pensei sobre essa relação estreita e delicada entre verdade e mentira nesta semana, quando ouvi o desabafo de uma amiga. Atendendo um pedido de sua mãe, ela estava hospedando uma amiga desta há cerca de um mês. E, diante da iminência da visitante ficar por um prazo indeterminado, precisou usar do artifício de uma mentira para ter de volta a sua privacidade. Sua vida estava se tornando um caos. O marido lhe disse, à queima-roupa, que não agüentava mais. “E olha que ele é a pessoa mais calma e pacienciosa que conheço”, disse-me ela. 

Minha amiga o viu no limite e temeu pelo que pudesse vir a acontecer ao relacionamento dos dois, e pelo estresse que surgiria com a mãe dela se fosse deflagrada uma explosão verbal. Afinal, aquela senhora era a melhor amiga da sua mãe e estava cuidando do irmão na UTI de um hospital, sem qualquer previsão de mudança no quadro clínico. “Meu marido a escutou falar ao telefone com parentes em sua cidade e compreendeu que haveria uma substituição nesse ‘plantão’, ou seja, ela iria embora e viria outra pessoa substituí-la. E para ficar na nossa casa!”, contou-me alarmada.

O assunto é prato cheio para análise e embora já tenha sido exaustivamente debatido, continua como uma intrincada peça de perdas e ganhos em nosso dia-a-dia. Os que dizem a verdade, geralmente são considerados ingênuos e, não raras vezes, ganham inimigos. Existe até um cálculo de que a cada cinco minutos uma mentira vem aos lábios, contabilizando uma média de 200 vezes por dia.

Segundo a psicóloga americana Bella DePaulo, da Universidade da Virgínia, EUA, os cônjuges e familiares são vítimas de dois terços de todas as mentiras graves. “Sorrimos diariamente com um olhar inocente para manter uma boa atmosfera, ou para nos apresentar sob uma luz mais favorável”, diz ela. 

Mas não é preciso se enganar também que mentira tem que ser elaborada. Afirmações falsas ou falsos elogios igualmente são mentiras, mesmo aquelas comuns tipo: “você está mais ótimo mais magro ou mais gordo”, ou ainda “não fui trabalhar hoje porque estou gripado”, numa afirmação deslavada.

Li em algum lugar que existe apenas uma diferença entre a verdade e a mentira: a mentira é sempre verossímil. Já a verdade, na grande maioria das vezes, é inacreditável. Ou inaceitável.


Rosane Leiria Ávila (POA, 1º de abril de 2009)

Publicado no Mulher Interativa (http://mulher-jornalagora.blogspot.com) / Jornal Agora (www.jornalagora.com.br)

sábado, 18 de abril de 2009

"Pode ser que a mão se feche"



“Pode ser que a mão se feche, mas hoje ela se abriu...”, disse o maestro João Carlos Martins ao usar sua mão pela primeira vez em um show, depois de oito anos e após nove cirurgias. Ele estava eufórico e não era para menos, pois conseguiu tocar com todos os dedos da mão esquerda, na comemoração dos 455 anos de São Paulo, no último dia 25. Pianista e maestro de reconhecimento internacional, ele é considerado um dos maiores intérpretes de Bach do mundo.

Aos 26 anos, por causa de uma queda em um jogo de futebol, ele perdeu parte dos movimentos da mão direita. Na seqüência do tempo teve LER (Lesão por Esforço Repetitivo) nesta e retirou um nódulo da esquerda. Não fosse o bastante, ainda sofreu uma lesão no cérebro ocorrida após um assalto na Bulgária e que afetou o movimento de sua mão direita.

A euforia do maestro com a conquista advém da sua capacidade de superação. De acreditar que não há limites para o corpo quando a mente determina. Ou quando a fé impulsiona. O ato de se superar determina a diferença entre a alegria e a tristeza; a piedade por si mesmo e o respeito; entre a vitória e a derrota; o amor e o ódio; a resignação e a coragem...

Todos os dias chegam até nós exemplos de superação, através de pessoas que vão além dos seus próprios limites. Há pessoas que perdem um braço, uma perna. Ou ambos. Que se tornam cegas. Paraplégicas. Tetraplégicas. Que perdem quem mais amam. Ou a família inteira. Depois do primeiro impacto, continuam em frente, reerguem-se, voltam a acreditar na vida e nelas mesmas. E voltam a sorrir.

Não fosse assim, acho que o próprio homem não sobreviveria à dor e às perdas causadas pelo seu próprio mal. Não raras vezes, algumas notícias nos deixam pasmados. Como as dos últimos noticiários sobre o genocídio na Faixa de Gaza e a do traficante mexicano, que confessou ter dissolvido 300 corpos com corrosivos químicos. As duas são de horripilar. No Oriente Médio, corpos dilacerados espalham-se pelos corredores dos hospitais. A fúria israelense desconsidera civis, crianças e mulheres. No México, após o anúncio, o país entrou em comoção. E não foi para menos. Centenas de pessoas acorreram na esperança de localizar corpos de parentes desaparecidos numa guerra de narcotráfico que já fez mais de 5,7 mil vítimas só em 2008.

Por isso tudo, e em meio a esse caos de notícias cotidianas, é que a nota sobre o maestro se torna indelével. Quando ele encerrou a apresentação na praça Victor Civita, estava emocionado. O público também. E ambos choraram.

Rosane Leiria Ávila (rosaneleiria@gmail.com)

Publicado no Mulher Interativa (Jornal Agora, 1º/02/2009)

Temperança



O artigo não era novo, mas na sala de espera de um consultório médico chamou minha atenção pelo fato de ser atemporal. Em um número da revista Bons Fluídos de 2006, a jornalista e pesquisadora Sônia Hirsch escreveu sobre temperança.

Temperança, segundo o Aurélio, é qualidade ou virtude de quem é moderado, ou de quem modera apetites e paixões; sobriedade. Também significa moderação, comedimento, temperamento, economia e parcimônia.

Pensei que temperança é o que deveria pautar a vida de todos nós. Ultimamente tenho pensado sobre o futuro da Humanidade e do nosso próprio povo. E tenho sido cética em minhas conjeturas de que não há saída, de que o mundo não vai ficar melhor e de que os homens não vão rever conceitos nem mudar costumes e ambições. Entretanto, como escrevi acima, se em cada um de nós estivesse plantada uma sementinha de temperança, viveríamos tempos melhores. Deixaríamos perspectivas de vida mais dignas, mais saudáveis e mais humanas aos adolescentes e crianças de hoje.

Temperança, quando a questão é o alimento como uma experiência diária de prazer e satisfação que precisa de temperos, não o dos vidrinhos, mas o da consciência, afirmou Sônia, é por exemplo, comer só na quantidade adequada à necessidade do momento. “Comer demais é uma das maiores burrices da vida e, além de ser um desperdício, sobrecarrega a digestão, entorpece a mente, engorda, prende o intestino e vira doença”.

E penso que quando a questão é moral,temperança é não se desejar mais do que se pode usufruir; é não ter demais quando tantos têm tão pouco. Temperança é saber que podemos ser felizes com o razoável. É se contentar com um carro popular ao invés de sonhar com um modelo importado, porque ambos percorrerão as mesmas distâncias. Temperança é um estado de consciência sempre em alerta aos excessos e às vicissitudes descabidas.

A autora também citava o livro Pequenos Tratados das Grandes Virtudes, do filósofo contemporâneo André Comte-Sponville (Editora Martins Fontes): “A temperança, que é a moderação nos desejos sensuais, é também a garantia de um desfrutar mais puro ou mais pleno. É um gosto esclarecido, dominado, cultivado. Em vez de escravos, passamos a ser senhores de nossos prazeres”.

O grande pensador do século XVII, Baruch Spinoza (1632-1677), diz que a temperança é um meio para a independência, assim como essa é um meio para a felicidade: “Ser temperante é poder contentar-se com pouco. Mas não é o pouco que importa: é o poder, e é o contentamento”.

 

Rosane Leiria Ávila (publicado no Jornal Agora)

www.jornalagora.com.br